5º campeonato · Cebola
Te deixei cortar-me, agora choras. A ti mostrei meu miolo ácido, anelado, e agora choras. Espargi no ar minha seiva acre até teus olhos. Agora choras. Depois calor e óleo, me vi suave. Desmanchei-me entre teus dentes, acariciei tua língua, tão mansa, quase doce... e agora choras.
5º campeonato · Nota
Enrolada na toalha, vinda do banho, divisou a nota de cem sobre a mesinha ao lado de seus brincos. Na cama o homem já perdera sua volúpia e o olhar procurava algo na penumbra fria do quarto. Deixou que a toalha caísse e sentiu um arrepio no corpo: “Ui!”, gemeu baixinho. Saindo do torpor, o homem olhou para ela e sorriu, satisfeito. Ela também sorriu, tímida. Vestiram-se.
5º campeonato · Desejo
Pedaços suculentos de carne dançam nas bocas que mastigam e engolem, enquanto falam alto, cuspindo farofa. O cão, no seu mundo de odores, fareja, toma gosto e gane baixo, submisso, a espera de um pedaço que, por descuido ou bondade, chegue ao chão. "Toma, Caramelo!" Alguém joga um pedaço já roído e enervado. Caramelo abana o rabo, feliz, engole rápido o sobejo e volta à mesa, ainda mais sôfrego, a língua passeando no focinho, e ainda mais humilde, orelhas murchas, olhos tristes, dentes bem guardados na bocarra.
5º campeonato · Ninguém
O monstro, que tanto nos assombrou no passado e que nossos pais corajosamente aprisionaram, estava finalmente livre. Para a nossa surpresa, ninguém mais o temia. Chegou a sentar conosco à mesa e dividir o pão. Porém, triste é o destino: sem querer, o monstro viu-se refletido em um espelho e não suportou a própria imagem.
5º campeonato · Vazio
Alta noite e na rua nem gatos, nem grilos, nem galos que anunciem a alba que se aproxima. Nas pequenas residências a vida lateja, comprimida. Mais tarde a turba ganhará as calçadas e os transeuntes distraídos mal perceberão o vazio sobre o qual pisam.
5º campeonato · Pétala
A libélula libela, sobre uma pétala de lírio. Lamenta a vermelha jaça da joaninha que passa, e a Joana sem graça só lamenta seu martírio: "queria ser amarela!"