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Microconto

Campeonatos de microcontos · Autores

@betomuniz65

38 microcontos nos campeonatos 5º e 4º.

5º campeonato 13

5º campeonato · Cavalo

SOBRE MEMÓRIAS E OUTRAS TOCAIAS

O ruano sabia o caminho de casa. Encarapitado na porteira, fui o primeiro a estranhar a sela vazia, a dar o grito, a perceber as rédeas soltas. Lembro que os estribos vazios, dançavam no ritmo do trote.

5º campeonato · Bolinha

SOBRE SEGREDOS E OUTRAS INGRATIDÕES

Fubá, o mendigo do bairro, acostumou pedir comida no portão, ele tinha um cachorro branco, feio, que latia para mim. Enquanto esperava minha mãe trazer a matula do dia, Fubá fazia bolinhas de catota e grudava na maçaneta. Nunca denunciei.

5º campeonato · Palhaço

SOBRE COVARDIA E VERDADES INTRAGÁVEIS "Eu tenho cara de palhaço?" O bruto repetindo a pergunta aos berros, um palmo do meu nariz, e eu de boca fechada, para não engolir os perdigotos.

5º campeonato · Marca

SOBRE LAVRA E OUTRAS GEOGRAFIAS

Não tinha nenhum sinal de nascença, apenas marcas de vivência.

5º campeonato · Baralho

SOBRE MAÇO E OUTRAS ENTREGAS

Embaralhou com maestria, reservando copas e paus. Depois pediu o corte. Ela não estava para ouro e espada, tirou apenas a primeira carta e mandou subir.

5º campeonato · Cebola

SOBRE ACOSTAMENTO E OUTROS GATILHOS

Aos treze anos de idade eu era o segundo mais alto da turma. Foi no domingo, beira de rodovia a caminho do rio, a roda de um caminhão se desprendeu e saltou sobre a cabeça do Cebola, que afundou sete palmos no solo e me tornou o primeiro em altura.

5º campeonato · Desejo

SOBRE ETERNIDADE E OUTRAS ANGÚSTIAS

Quanto mais perto da cova, mais pujante era seu desejo de voltar ao berço.

5º campeonato · Ninguém

SOBRE INVISIBILIDADE E OUTRAS GUERRAS

Secou o suor das mãos na barra da saia, passou o cotoco de batom nos lábios e sorriu para o retratista. A euforia trêmula no ínfimo tempo de um clique, e fim. Novamente era uma ninguém.

5º campeonato · Vazio

O nada foi se aproximando, engolindo tudo, até não restar nem mesmo um vazio sem fim.

5º campeonato · Estrela

SOBRE DEVOÇÃO E OUTRAS FRATURAS

Parou o carro e mandou a mãe avisar no término da consulta. Ela entendeu o mau humor, sentir palpitações em horário comercial? Ao descer, quis amenizar o transtorno e brincou: “Esse motorista não está merecendo cinco estrelinhas, vai ganhar só uma!” Deus não levou na brincadeira.

5º campeonato · Pétala

SOBRE CONGESTIONAMENTO E OUTROS ACÚMULOS

Transitar sobre crisântemos pela manhã dá nisso, um girassol de ideias, um ir e vir de pensamentos que, quase sempre, estacionam em rosas.

5º campeonato · Corpo

Vendo Logan Dynamique 1.6 ano 2017 preto placa final sete com quarenta e oito mil quilômetros rodados. Cabem três corpos no porta-malas. Posso provar!

5º campeonato · Corpo

CONQUISTADO PELO ESTÔMAGO

Após cinco anos de casado e vinte quilos mais gordo, descobriu que i-food não era a marca dos guardanapos de papel.

4º campeonato 25

4º campeonato · Anel

SOBRE CANTIGA DE RODA E OUTRAS FRAGILIDADES O amor que Tumi tinha, era pouco, se acabou.

4º campeonato · Anel

A família decidiu que o lar de idosos era a solução. No encaixotar miudezas, a menina achou, na gaveta de cabeceira, a peça dourada, grossa, vigorosa. Adornou o braço da boneca e anunciou: "Vovó, olha a pulseira da Lilika!" A avó pensou alto: "Isso é um anel…" "Anel de gigante, Vovó?" A viúva suspirou, nostálgica: "Não. Não chegava a ser gigante."

4º campeonato · Anel

- Dona Arlete, viu minha aliança? Deixei aqui ó. Tirei só pra lavar a privada.

- Vixi, deve ter caído na pia. E se caiu, já era! Tubulação é direta pro esgoto.

- Deus, me ajude achar essa aliança.

- Deus não vai procurar, pede pra São Longuinho, reza e dá três pulinhos.

Dia seguinte, Dona Arlete na rua do centro sorri e dá três pulinhos em frente ao cartaz "COMPRO OURO".

4º campeonato · Abóbada

SOBRE CHUVA E OUTROS PECADOS

Choveu, o céu desceu na lama. A copa da árvore, no arco da igreja, reflete mandala na poça. Roda e passos movem as nuvens, espalham reflexos. Na carroça, entre restos de papelão, o retalho de tule branco incita devaneios na moça, que recolhe caixas vazias e sonha passar nesses arcos, sob chuva de arroz.

4º campeonato · Receita

De novo e de novo e de novo a máquina de moer pobre subiu o morro. Foram tantas vezes que, para evitar extinção, naquela noite houve revide. Receita simples, para cada corpo modesto na vala, duas almas abastadas chegavam no céu. No dia seguinte, nenhuma larica no asfalto. Nenhum barato. Nada!

4º campeonato · Receita

Minha paquera saiu e ficamos, eu e Quintana, formando palavras. Faltava o X quando revelei me sentir velho para arroubos namoradícios, porém jovem para longas caminhadas. "Bobagem - gesticulou dispersando incômodos no ar, caminhar é coisa de burro velho." Nada falou sobre efusão juvenil de afeto, optou por indicar o X da 'PAIXÃO" em minha colher.

4º campeonato · Receita

Seis filhos, uma escadinha de zero a nove anos de idade, com obrigação diária de comerem toda a comida no prato. Ao completar dez anos, ganhei um vira-latas, o  Caramelo. Nunca mais mamãe reclamou nossa falta de apetite.

4º campeonato · Receita

SOBRE FIDELIDADE E OUTROS PALIATIVOS

A estaca puída no meio do terreiro denunciava servidão. A corrente curta, enferrujada, insinuava um panorama de violências e cólera. Súbito o assovio! E o movimento dorsal, expulsando felicidades pela cauda, contestou todo o cenário.

4º campeonato · Bilhete

Ganhei uma bola de plástico azul e a mão, por instantes, repousando no meu ombro. O gatilho que aciona essa memória é barulho de trem, partindo. Daí em diante, é um atropelo de recordações, a mão de meu pai descendo até a alça da mala, na outra mão o bilhete de embarque, que demorei anos para saber, era só de ida. Estava distraído com a bola azul.

4º campeonato · Bilhete

LIVRO DE SEBO

Chegou em casa, percebeu que tinha dedicatória na segunda página, assinada por "Morzin Felizin". Eram instruções para ler o sublinhado na vigésima terceira página do capítulo onze. Decidiu que, dessa vez, não seria vencido pela curiosidade.

4º campeonato · Drama

SOBRE PRÊMIOS E OUTRAS ANGÚSTIAS

Final do outono de 1944, meu pai não deveria estar sem o casaco. Ele passou por mim, nem sorriu, foi um breve instante, o suficiente para eu ver sua nova tatuagem "43806". Ano após ano apostei fielmente com estes números e então, envelheci demais. Abandonei as loterias e mantive a lembrança do braço de meu pai. Não eram os números da sorte.

4º campeonato · Romance

Rayka era inconstante. Se distraia num súbito de alegria, exalando vida em rodopios e então, nada... ajeitava os cabelos atrás da orelha e amainava em silêncio. Ela sabia! Sabia que eu nutria um desejo de permanecer junto, desvendar segredos de nau ancorada, mesmo assim desfraldava a polaca e se ia, entre tormentas e sombras. Decerto ela me via poita, somente um amparo na imensidão dos oceanos. Eu queria ser porto.

4º campeonato · Fantasia

SOBRE AMORES E OUTRAS JORNADAS

Desencantada, a fera desistiu de encontrar seu príncipe. Eras depois, em seu retiro, nos confins do reino, um cavalo branco prestes a ser devorado, contou sobre outra fera, também reclusa numa torre.

4º campeonato · Fantasia

Lili desenha ao meu lado, na televisão notícias da seleção feminina. "Quando eu crescer vou jogar bola na seleção e ganhar no terceiro lugar". Resisto alguns segundos e pergunto se vai disputar também o primeiro lugar. Ela dá de ombros "Pode ser, mas o número três é maior que o número um". Matemática não é o forte nessa família, assunto encerrado!

4º campeonato · Fantasia

Passou a tarde inteira, tristonha. Havia pisado, sem querer, numa lagarta. Antes de dormir, mãozinhas postas em oração, perguntou ao papai do céu se a lagarta tinha virado estrelinha. Depois do amém, achou por bem perguntar se, ao invés de estrelinha, no céu Dele não ficava mais legal uma borboletinha.

4º campeonato · Terror

No auge da espuma acabou a luz. O banho quente de súbito, gelou. A penumbra saturada de vapor deu vida à mão, sem braço, sem corpo, sem lógica, flutuando em direção a sua barriga, onde o bebê chutava alucinadamente.

4º campeonato · Terror

O pai acorda com o caçula entre o casal. Solta um 'porra' e arrasta o filho, que esperneia, grita que tem monstro no quarto. Solta uns tapas, joga o "moleque-dos-infernos" na cama e volta, antes que passe o umbral o orangotango das trevas salta em suas costas. Quatro dedos longos arrancam e esmagam o coração. O homem cai de joelhos, se vira e vê apenas o filho, ainda na cama, olhos arregalados.

4º campeonato · Humor

É Pé do quê? "Minduim." Minduim? “É, minduim." Corrijo: Amendoim! "Uai, se ocê sabe num pergunta!” Logo, outra plantação. Essa, é o quê? "Miíi.” Milho? Nem me dá conversa. Outra roça, ele já antecipa: “Feijão." Feijão preto ou carioquinha? “Feijão verde.” É chão até desfazer o bico. Debocho, ele ri. Aproveito que está acessível: Essa uva é Cabernet, Merlot ou Chardonnay? Me manda catar coquinhos e acelera o passo.

4º campeonato · Pico

Boca, narinas, olhos, ouvidos e cabelos estorvados de cinzas, a menina ressuscita o fogão a lenha. A mãe vem do curral, ajeita o galão de leite na trempa e ocupa a única cadeira da cozinha. Emília trepa no colo da mãe, busca um breve momento de afago. Só no tempo do leite ferver, ela tem o pico de carinho do dia. Por este afago vale a pena madrugar o medo, encarar o paiol escuro em busca de palhas secas.

4º campeonato · Policial

Matei vários espíritos domados. Policiava o vão das pupilas, se revelavam a quietude de um espírito calmo, eu o feria de morte. Na morte deste, nascia nova inquietude. Me renovei sem conta, até perceber que sempre me habitou a mesma alma. Nunca morreu de verdade, riu todas as vezes que pensei tê-la matado. Rir de mim não foi inteligente. Posso feri-la de fato. E para isso nem preciso ser forte, só preciso cegar os olhos.

4º campeonato · Ontem

Meu irmão está bonito. A esposa chora de mentirinha! Só esse ano, separaram e voltaram três vezes. Hoje ela enterra o traste de vez. Porque meu irmão, como marido, era um traste, sim senhor. Depois de morto vai virar santo, padroeiro dos casamentos felizes? Safado! Vivia botando cornos na mulher. Quantas vezes tive que aplacar as angústias dessa coitada. Separava dele corria pra onde? Lá pra casa. Eu dava abrigo e comia.

4º campeonato · Sinais

A trilha é um contínuo subir e descer serras. De um lado o muro de arrimo, feito por Deus, impede que a serra desmorone sobre mim, do outro lado o abismo ecoa sons de cachoeiras. Quando o rio, lá embaixo, faz as pazes com as pedras, o canto de pássaros predomina. No paredão de arrimo, brotos em multi tons de verde, se agarram nas ranhuras e dançam coreografados pelo vento. Minhas pegadas vão durar até a próxima chuva.

4º campeonato · Alunos

O pai danava, dizia 'arréda' e a gente arredava! Antes, quem dizia 'arréda' era meu avô, depois ele morreu e o pai ficou com o costume de dizer ‘arréda’ pra tirar as crianças de perto. Então, tenho pra mim, que a gente aprendeu se arredar pra longe, foi mais por costume mesmo.

4º campeonato · Selo

LA MAGIA DE LOS SELLOS

Devolvia sempre uma página a menos. Mão direita sobre o carimbo, carimbo sobre a almofada azul, mão esquerda recolhendo uma via á gaveta. Pura habilidade. A boca sibilando "próximo" e Juvânia esnobe, abocanhando com a canhota, novas fichas em várias vias. O atendido organizando páginas, as vezes sorria. Admirado eu decidi, quando crescer seria carimbador. Só não entendia Juvânia, produzindo a magia num mau humor danado!

4º campeonato · Rasgar

As vezes, quando estou sozinho, eu danço. O pai faleceu há anos, deixou viúva e prole. Primeiro venderam o carro, depois a casa, por fim leiloaram a dignidade da viúva. A mãe no quartinho, televisão sem volume, para não incomodar. Tive amor. Resgatei dos sapos rasgando laringe, se acomodando no estômago, devorando borboletas. Quinze anos de amor! Não avisei os órfãos, no velório mandei todos para o inferno e dancei.

Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.

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