5º campeonato · Baralho
Ascensão social
Desgostoso da vida, boletos atrasados, recorreu ao tarot para encontrar alguma saída. Via-se dinheiro em seu futuro. Saiu animado. Finalmente pararia de vender a alma por um prato de comida. Foi atropelado por um carro-forte. Ascendeu aos céus.
5º campeonato · Baralho
O padrinho era calado. Solitário. Dos seus 80 anos, passou 60 trabalhando com a enxada. Hoje, distante do campo, esmorece. A dor nos joelhos o faz andar com dificuldade. Seu corpo está adoecido, a mente vacilante. Mas quando embaralha as cartas, vira um deus invencivel. E, finalmente, sorri.
5º campeonato · Baralho
Jogava paciência como ninguém. Azes, reis, rainhas e toda a corte passavam por suas habilidosas mãos diretamente ao seu destino inexorável. Mesmo com toda a sua experiência, a solidão estava lhe tirando a paciência.
5º campeonato · Cebola
Era um tempo bom. Intercalava os desenhos com as brincadeiras no quintal. Corria. Inventava mil adversários para o herói erigido pela imaginação enfrentasse.A casa era cheia de crianças aos fins de semana. Amigos, primos. A alegria reinava soberana. Meus maior problema era a cebola escondida no prato. Hoje gosto de cebola. Mas preferia não gostar.
5º campeonato · Cebola
ALEXITIMIA
Não sei dizer se sei sentir. As vezes eu acho que o afeto é uma ilusão que minha vaidade quer. Quando percebo tristeza, a percepção é tão tênue que me sinto um impostor. Quando me angustio, corto cebolas. Assim, pelo menos finjo que choro com lágrimas nos olhos.
5º campeonato · Cebola
TRANSPLANTE
Penúria. Não vivia. Sobrevivia artificialmente. A frieza da máquina tinha aumentado sua espectativa de vida em somente alguns anos. O médico já havia assinado sua sentença. O sal foi proibido. Cortava as cebolas chorando de amargura. Mas, um dia, o amor de sua esposa o salvou. Quando cortava cebolas agora, chorava de alegria.
5º campeonato · Nota
Acordou as 5 da manhã. Não tinha pães, somente sonhos. Mas sonhos não enchem barriga. Saiu com fome. Pegou o ônibus. Uma hora depois, quando já havia desenvolvido uma empatia ímpar com a sardinha em lata, desceu no centro. Lá tomou a segunda condução. Chegou na escola. Recebeu um C menos no trabalho. Faltou esforço, disse o professor.
5º campeonato · Nota
BLOCO DE NOTAS
A pressão foi aumentado no interior do seu peito. Estava a ponto de explodir. Rasgou o coração. Derramou tudo no papel. Jogou de qualquer jeito. Sem crase, sem travessão. Sem normas. Ideias caóticas. É preciso o caos para nascer a paz.
5º campeonato · Nota
NOTA DÓ
Primeiro encontro. Ele pergunta: "Com o que você trabalha?". O parceiro responde: "Sou um empreendedor. Por enquanto, estou no ramo de automóveis. Mas pretendo expandir posteriormente meus negócios para áreas afins, como postos de gasolinas e lojas de peças.". O ouvinte perguntou surpreso: "Qual é o nome da sua empresa?". Ele respondeu: "Uber"
5º campeonato · Desejo
Depois de anos de procura, os aventureiros finalmente acharam o grande tesouro. Josué esfregou a lâmpada, uma figura espectral surgiu dizendo: "Vocês tem direito a três desejos". Seria um para cada. Ouviu-se sons de disparos. Dois deles tombaram. O assassino se aproximou e disse "Desejo nunca mais sofrer". Foram suas últimas palavras.
5º campeonato · Desejo
O POBREZINHO
Em tempos de cruzadas, o sultão convidou um cristão maltrapilho ao seu palácio. Ele tinha cruzado a fronteira desarmado e descalço falando palavras mais doces que o mel. Ofereceu-lhe grandes tesouros. A tudo o homem rejeitava como se fosse esterco. Ele perguntou, por fim, estarrecido "O que deseja?" Ele disse: "Desejo a paz e o bem."
5º campeonato · Desejo
Caiu novamente na cama, um buraco no lugar do coração. Já não sentia coisa alguma. Orgulhava-se. Tinha vencido a tristeza, afinal. Mais por que o desejo de prorromper ao chão permanecia?
5º campeonato · Ninguém
PAPEL DE ÁRVORE
No baile da interação social, quem não sabe dançar é ninguém. Presença ausente. Apenas parte do cenário. Já me odiei e sofri pela invisibilidade. Lutei contra meu destino. Agarrei com unhas e dentes a existência. Amadureci. Hoje sou instável. As vezes existo, as vezes não. Mas o silêncio já não é cicuta para mim.
5º campeonato · Vazio
De novo, o filho chorando de dor no estômago. De novo, o coração da mãe se despedaça e ela diz com convicção: o vazio mais terrível que existe é o da geladeira
5º campeonato · Vazio
A BOLA
Encheu-se. De esperança, de sonhos, de alegria, de ânimo, de amor. Mas os espinhos da rosa o perfuraram. O ar saiu de seu interior. Vazio. A vida era essa. Um ciclo constante de se encher e se esvaziar.
5º campeonato · Vazio
Não sentia dor. Não sentia prazer. Não sentia coisa alguma. Casca vazia. Nessa apatia infinita, nada parecia importar mais. Deixou de trabalhar. Deixou de tomar banho. Deixou de viver. Houve choro e ranger de dentes.
5º campeonato · Estrela
"Brilha, brilha, estrelinha", cantava a mãe enquanto a filha se aninhava no seu colo. Hoje, sozinha, a mulher chora. Já não há colo e a estrelinha já não brilha.
5º campeonato · Estrela
Onde tinham se escondido a luz das estrelas? Aquela boca, que tantas vezes a havia levado ao céu, agora a arrastava para o inferno.
5º campeonato · Corpo
Encontro de corpos inebriados pelos prazeres da carne. Mas só um deles trouxe a alma. Choro, ranger de dentes.
5º campeonato · Corpo
Viu-se no espelho. Estava imensa. Ignorando as recomendações médicas, fez jejum por mais um dia. Seria, em pouco tempo, consumida até os ossos pela doença.
5º campeonato · Corpo
Apertou o gatilho. O corpo dele caiu no chão a sua frente em um baque surdo. Som de grilhões se quebrando.