11º campeonato · Diálogo
Queria tirar dele duras palavras. Gritava, xingava, berrava e nada.
Sem mais tática, afastou-se, emudeceu-se e foi no silêncio que então ele falou: -Eu não te odeio, eu te amo!
Cessou a guerra.
11º campeonato · Diálogo
Queria tirar dele duras palavras. Gritava, xingava, berrava e nada.
Sem mais tática, afastou-se, emudeceu-se e foi no silêncio que então ele falou: -Eu não te odeio, eu te amo!
Cessou a guerra.
11º campeonato · Diálogo
-Oi, tudo bem? Espero que não esteja magoado. Eu não quis machucá-lo, eu estava apenas perdida…
Ensaiava o diálogo no espelho, com medo de torná-lo uma verdadeira mentira.
11º campeonato · Diálogo
Ninguém atende
Dias, semanas, meses.
Então, em uma epifania tardia, ela entende: ele nunca esteve disponível.
11º campeonato · Fotografia
Luz e sombra, aquarela não pintada. No porta-retrato, noivo e noiva na porta da igreja. Papel amarelado conta décadas do sim meio imposto. Os anos repetiam a cena sem reconhecê-los no cotidiano.
11º campeonato · Fotografia
Riso largo com os olhos quase fechados. Brinca de pular enquanto a mãe clica. Pula, pula e ri alto.
O cabelo quase levanta voo.
Os vizinhos já estão acostumados, mas sempre incomoda um ou outro de olhar meio ranzinza.
11º campeonato · Fotografia
Revelou-se!
Sua opinião não era considerada por muitos, risadas e caras debochadas.
Mas, de repente, foi vista por milhares: nua, um click, milhares de fotografias.
Hoje é a influencer mais bem paga.
11º campeonato · Bolso
Enfiou a mão no bolso da antiga jaqueta de brim, aquela com bordado.
No fundo, um bilhete gasto, tinta esferográfica quase sumindo, papel rendido nas dobras e com cheiro de tempo.
“Não esqueça de sorrir hoje.”
Sorriu.
11º campeonato · Bolso
No fundo do bolso esquerdo, o anel de noivado.
Ansioso, confere a cada minuto se ainda está ali.
A mão suada o retira mais uma vez.
Escorrega rápido.
E com ele, por um segundo, o pedido inteiro.
Ela nunca disse sim.
11º campeonato · Bolso
No bolso, a ausência do cheiro conhecido: pé de goiaba com bicho, pé descalço encardido, mão de mãe na testa a medir temperatura. Febre. Caxumba. Pai engravatado. Os irmãos agitados.
Bolso furado.
O tempo vazou.
11º campeonato · Banda
A abelha estressada voou zangada. A formiga trabalhadeira fez uma barulheira, mas quem ganhou foi a simpática cigarra que do microfone não largava.
11º campeonato · Banda
Só ele a aplaude quando na noite a música termina, uma sinfonia de olhares, cantos e acordes que nenhuma banda toca, não aquela nota, proibida para menores.
11º campeonato · Banda
Ela, ruído. Ele silêncio. Juntos, uma melodia que atravessa o tempo.
11º campeonato · Ficção
Das sombras, o vampiro surgiu, braços abertos, capa imponente. De repente, hesitou. “Magra demais”, pensou. Ela, sem entender, chorou sua partida. Afinal, as capas de revista diziam que ela era linda.
11º campeonato · Ficção
Realidade ou não, o vão das suas mãos incorpora o exato encaixe de nossos corpos em um súbito desejo sem razão. - Disse o tapa fingindo ser amor.
11º campeonato · Ficção
Mitigou tudo o que pôde quando percebeu que de seus olhos haviam saído raios laser e um quarteirão inteiro jazia em extermínio.
Inventou que era mentira, para poder continuar se olhando no espelho.
Ficção de veraneio.
11º campeonato · Cobre
A raiva corroeu feito cobre, metal não tão nobre, mas um excelente condutor: corroeu feito o rato na roupa do rei.
Faíscas voaram pelo ar, brilhando feito ferrugem em brasa.
Um tom a mais.
Não era ouro, era fio exposto contrário à paz.
11º campeonato · Cobre
Plástico azul, tão grudado que ao queimar, soldou.
Indivisível a olho nu.
Cheiro de carne queimada, tostada num furto errôneo.
Ao fio de cobre deu vida, sem lembrar que era o vício, que o guiara até ali.
Ele e o crack: agora, inseparáveis em um churrasco nauseado de fio.
11º campeonato · Cobre
Cobre essa vergonha, abaixa essa saia, senta logo com as pernas cruzadas.
Não fale nunca alto, não ria em excesso, não responda dessa maneira.
Vista algo menos vulgar, ninguém irá acreditar, é você contra eles.
Eu avisei, agora não adianta chorar.
11º campeonato · Melancia
A mãe o levava ao mercado:
— Escolha uma fruta para experimentar.
Ele escolhia sempre a mesma.
— Hoje, as sementes. Amanhã, a casca. Depois, a fruta.
Nos olhos dele: camadas novas a se explorar.
11º campeonato · Melancia
– Há quanto tempo dorme em camas que não são suas?
– Desde que a pátria deixou de ser rua.
Não havia volta.
Representados por uma fruta.
Cores que lutam.
11º campeonato · Melancia
Recatada.
Meio sorriso, fala arrastada.
Fita no cabelo, bochechas coradas.
No protesto, subia no coreto e falava com megafone.
Falas incendiadas - labaredas.
Verde por fora. Vermelho por dentro.
11º campeonato · Ano
Escrevia cartas para si mesma, relatando os sonhos e comparando-os ano após ano. Mudavam os cenários, os amores, as urgências. Percebeu algo curioso: de todos, apenas um persistia : conhecer melhor a si mesma.
11º campeonato · Ano
Pensava em demitir-se todas as manhãs. Em um ano, colecionara frases impactantes que diziam, de diversas formas: “eu não preciso disso”. Porém, os 365 dias falavam em murmúrios cotidianos que, sim, ele precisava. E, na contradição entre sonho e realidade, ficou a apertar parafusos difusos.
11º campeonato · Ano
Miúdos cacos espalhados pelo asfalto.
Lataria retorcida e gritaria.
Era ano-novo. Entre brindes e excessos, desejavam que fosse diferente de todos.
E foi.
Nenhum depois desse chegou.
11º campeonato · Toa
Com o corpo suspenso por um único cabo, por um fio, assistia, lá de cima, os outros.
Quando resolveu romper: bagunça ao extremo.
Todos tiveram que limpar a bagunça que ajudaram a suspender.
Manchados.
11º campeonato · Toa
No meio do Mar Morto, a arca teve que ser rebocada: não flutuava.
O peso era vivo e estava convicto de que não havia salvo a todos.
11º campeonato · Toa
À toa, deitada na grama verde, olhando o céu: nuvens brancas, macias como algodão no céu da boca, sonhava acordada.
Foi rebocada pela pomba que passava.
11º campeonato · Umbigo
Não cabia, mas sabia, no potinho de vidro: levava a lembrança do vínculo. Ajoelhada ao pé da cama, rezava para que o pai maior o guiasse pela mão nos caminhos onde ela não podia.
11º campeonato · Umbigo
Enfurecida com o não que recebeu dele inúmeras vezes, decidiu fazer algo a respeito: quebrou todos os espelhos do mundo para que nunca mais se vissem.
11º campeonato · Umbigo
Pediu para remover o umbigo, afinal Deus não o tem.
11º campeonato · Moeda
Morreu depois de mendigar amor.
11º campeonato · Moeda
De um lado Cida. De outro Patrícia.
A condução apertada, minúscula.
O carro luxuoso, cheiroso.
A falta de tempo para si mesma.
Ioga enquanto Cida faxina.
11º campeonato · Moeda
Resolveu pagar na mesma moeda, não sabia contar!
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.
Escolha um campeonato e uma palavra, e leia um por um, até o último.