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Microconto

Campeonatos de microcontos · Autores

@escritor_cego

32 microcontos no 11º campeonato.

11º campeonato · Diálogo

MICROCONTO ESCRITO POR CHAT GPT

— Como você se sente ao ser trocado pela gente? — provocou a meia-risca, abraçada ao hífen.
O travessão deu de ombros e respondeu:
— A IA não me esqueceu.

11º campeonato · Diálogo

Tirei fronhas, sacudi cobertas, ergui o colchão, movi a cama, abri gavetas... Nem rastro. Obedeci ao relógio: vesti o uniforme, pus a máscara e saí. Na rua, nenhuma face nua. No ônibus, sequer fonema. No centro, vitrines ofertando bocas por apenas 50 salários mínimos.

11º campeonato · Diálogo

LÍNGUA UNIVERSAL DE SINAIS

Ama dialogar no trânsito. Seu sinal favorito? Dedo médio.

11º campeonato · Fotografia

JANTAR

Aguardava-o na sala, absorta pelos paredões de retratos. Preta, branca, parda, ruiva, loira, morena: todas abraçadas ao invisível. O relógio badalou. A coruja piou. As velas tremeluziram. O assoalho rangeu. A fome emergiu da penumbra. Séculos após o flash, ela ainda sente o pescoço arder.

11º campeonato · Fotografia

DERMOGRAFIA

— Tem foto disso, bisa?
Aos tremores, escorando-se na bengala, ergueu-se da cadeira, deu-me as costas, mandou-me arribar sua blusa e murmurou:
— O resistro tá na carne, minha fia.

11º campeonato · Fotografia

RELICÁRIO

Pasmou a Ortopedia. Aos 95, nem hérnia de disco. No pescocinho, duas eternidades.

11º campeonato · Bolso

VALOR

Fiquei inconsolável quando papai chegou do trabalho tirando uma chave do bolso e exclamando ser meu presente de aniversário. Enquanto ele e mamãe sorriam, eu chorava a ausência de minha boneca dos sonhos. Hoje, quando ouço a chuva cair no teto, recordo-me disso e choro sorrindo.

11º campeonato · Bolso

COM AMOR, TIO.

Para todos, três anos; para mim, três séculos. Enfim nutri coragem para doar o que restou. Benzi-me, destranquei o quarto, encarei retratos e abri o guarda-roupa. Cupins e traças roíam memórias. Tirei do cabide e sacudi a jaqueta. Do bolso, caíram uma carta e um teste de DNA.

11º campeonato · Bolso

CADEIA TRÓFICA

Suas visitas sempre questionavam o terrário das baratas, e o mão de vaca prontamente mugia:
— É para manter os bolsos bem alimentados!

11º campeonato · Banda

ADICIONAL NOTURNO

Estenderam o tapete vermelho. A banda larga chegou ao interior. Cabo pra tudo quanto é lado. O mundo conectado, exceto eu. Papai, homem antigo, cedeu aos meses de insistência. Deliciosos 750 Mega. Ganhei vídeos, músicas, jogos, amizades, namoros — mas perdi o beijo de boa noite.

11º campeonato · Banda

ZELO

Foi o primeiro a chegar. Era a estreia da filha. Encheram o auditório. Cortinas abriram. Enxugou a testa e pôs a flanela no ombro. Lá estava sua vida, tocando violoncelo, ao fundo do tablado. Cortinas fecharam. Esvaziaram o auditório. Enxugou os olhos e voltou a varrer. Foi o último a sair.

11º campeonato · Banda

DOCE LATIDO

Descobriu onde a mãe escondia: em cima do armário da cozinha. Arrastou uma cadeira, pôs um tamborete no assento e subiu. Tateou. Poeira. Tateou. Poeira. Achou. Desceu, limpou as mãos no vestido e rasgou a embalagem. Uma banda de chocolate para ela, outra para Mel.

11º campeonato · Ficção

EDITOR

Faz dois anos que recebi aumento. Até hoje espero o diretor gritar:
— Corta!

11º campeonato · Ficção

ERA UMA SÓ VEZ

Uma ONG levou crianças ao cinema. Uma, duas, três, quatro semanas depois, ainda conversavam entusiasmadas sobre o filme. Após dois meses, a ficção das telas foi baleada pela realidade das vielas.

11º campeonato · Ficção

Anos após ser traído com um homem mais velho, ainda procurava o cheiro da ex-esposa nos lençóis. Porém, julgava humilhante aceitá-la de volta. Então, fez uma máquina do tempo e viajou para um ponto anterior ao da traição. Ao encontrá-la e beijar sua mão, não viu aliança — estava escondida na bolsa.

11º campeonato · Cobre

SEMIANALFABETO

Seu Chico, metalúrgico e divorciado, já maquinava o plano quando assinou o contrato do seguro de vida.
— Cobre tudo, tudo, tudo! — garantiu o vendedor.
Exatamente uma semana depois, deixou um bilhete de despedida, convencido de que suas filhas seriam amparadas.

11º campeonato · Cobre

YORK

Toda sexta, Severino costumava vender cobre ao ferro-velho. A procedência era suspeita, mas nunca recusavam. Certa vez, sumiu por dois anos. Disseram estar preso. Porém, numa sexta qualquer, reapareceu puxando seu carrinho.
— Meu Deus! Que isso, Severino?!
— Minha Liberdade financeira!

11º campeonato · Cobre

NARIZ DA INFÂNCIA

De castigo, virado para a parede, o tacho de cobre é casa de teia e poeira, mas sinto ainda o perfume daquele doce de leite.

11º campeonato · Melancia

ESCOLA

Ficou conhecida como "a menina que engoliu uma melancia".

11º campeonato · Melancia

FEIRA

— Grande e vermelha, com sementes; grande e vermelha, sem sementes; pequena e vermelha, com sementes; pequena e vermelha, sem sementes; grande e amarela, com sementes; ou grande e amarela, sem sementes, freguês?
— Mendel filho da...

11º campeonato · Melancia

Algibeira emagrece na cintura. Facão oxida na bainha. Fruto cabe inteiro na palma da Esperança, que o parte com um canivete. Mais que novamente, vísceras não esboçam vermelho. Esperar vira resignar, diluvia os olhos, prostra-se no deserto e, lembrando-se da surdez de Deus, cala-se no meio da reza.

11º campeonato · Ano

ULTRAPASSAGEM

Em 2025, um 2026 colidiu frontalmente com um 2007. No primeiro, uísque 21 anos. No último, 33, 29 e 2.

11º campeonato · Ano

METAFÍSICA-ZUMBI

Ainda usa o calendário de 2005, ano de sua morte.

11º campeonato · Ano

MULHER-CALENDÁRIO

Na barriga, a data de nascimento.
Nos joelhos, os anos de infância.
Nos pulsos, os de adolescência.
No rosto, os de casamento.

11º campeonato · Toa

Uma tartaruga-marinha estava presa a uma rede, e um tubarão-tigre aproximou-se. Ela viu a morte e trancou os olhos. — Não tema! — disse ele — Te atoo até a praia. A pobre mal teve fôlego para agradecer. Minutos depois, perto da areia, sangue na água. Ela precisava de nutrientes para pôr seus ovos.

11º campeonato · Toa

Saquearam um navio espanhol no Mediterrâneo e rebocaram-no rumo à Turquia. Bocejando e chupando laranja na proa, dois piratas apostaram, cada um, três safiras e um mosquete. O desafio era muito simples: ir de uma nau à outra pela toa. O corajoso partiu, e o covarde ficou — mais rico e intimidador.

11º campeonato · Toa

À deriva no Atlântico, pescadores clamaram ajuda a Alá. O mar borbulhou, e a toa tensionou de repente, como se puxada por um submarino. A tripulação ajoelhou-se no convés e elevou as mãos, glorificando, amiúde:
— Allahu Akbar!
Casablanca inteira soube do milagre.
Dias depois, arpoaram uma jubarte.

11º campeonato · Umbigo

2126 d.C.

Encontro de almas. Corações bailando salsa. Conversamos as horas extras do bar. Partimos para minha casa. Fechei a porta, pendurei a jaqueta no mancebo e fui empurrado contra a parede. Camisa, calça, blusa, saia: tudo no chão. Descendo aos beijinhos, parei na barriga. Não tinha umbigo.

11º campeonato · Umbigo

APÓS A CHUVA

No quintal do viúvo, um casal de formigas mergulhou na piscina.

11º campeonato · Umbigo

SD PM GONÇALVES

Criança, questionava o segundo umbigo do pai. Adulta, agradece por ele não ter três olhos.

11º campeonato · Moeda

ISAC MILTON

Subtraiu-se da aula de álgebra. Havia calculado os pontos cegos do monitor e desenvolvido uma fórmula para saltar o muro. Checou os lados, lançou a mochila, ganhou impulso, escalou e aterrissou. No bar do outro lado da rua, a alavanca salivava pelo dinheiro do lanche.

11º campeonato · Moeda

PRESBÍTERO

Ocorria um fenômeno estranho naquela igreja. Todos os fiéis ofertavam ao menos um centavo, porém o gazofilácio só vivia magro. As visitas dos moleques após as missas acenderam a desconfiança do diácono, que redobrou a vigilância, mas nunca os flagrou. Afinal, não furtavam; eram pagos.

Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.

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