11º campeonato · Diálogo
MICROCONTO ESCRITO POR CHAT GPT
— Como você se sente ao ser trocado pela gente? — provocou a meia-risca, abraçada ao hífen.
O travessão deu de ombros e respondeu:
— A IA não me esqueceu.
11º campeonato · Diálogo
— Como você se sente ao ser trocado pela gente? — provocou a meia-risca, abraçada ao hífen.
O travessão deu de ombros e respondeu:
— A IA não me esqueceu.
11º campeonato · Diálogo
Tirei fronhas, sacudi cobertas, ergui o colchão, movi a cama, abri gavetas... Nem rastro. Obedeci ao relógio: vesti o uniforme, pus a máscara e saí. Na rua, nenhuma face nua. No ônibus, sequer fonema. No centro, vitrines ofertando bocas por apenas 50 salários mínimos.
11º campeonato · Diálogo
Ama dialogar no trânsito. Seu sinal favorito? Dedo médio.
11º campeonato · Fotografia
Aguardava-o na sala, absorta pelos paredões de retratos. Preta, branca, parda, ruiva, loira, morena: todas abraçadas ao invisível. O relógio badalou. A coruja piou. As velas tremeluziram. O assoalho rangeu. A fome emergiu da penumbra. Séculos após o flash, ela ainda sente o pescoço arder.
11º campeonato · Fotografia
— Tem foto disso, bisa?
Aos tremores, escorando-se na bengala, ergueu-se da cadeira, deu-me as costas, mandou-me arribar sua blusa e murmurou:
— O resistro tá na carne, minha fia.
11º campeonato · Fotografia
Pasmou a Ortopedia. Aos 95, nem hérnia de disco. No pescocinho, duas eternidades.
11º campeonato · Bolso
Fiquei inconsolável quando papai chegou do trabalho tirando uma chave do bolso e exclamando ser meu presente de aniversário. Enquanto ele e mamãe sorriam, eu chorava a ausência de minha boneca dos sonhos. Hoje, quando ouço a chuva cair no teto, recordo-me disso e choro sorrindo.
11º campeonato · Bolso
COM AMOR, TIO.
Para todos, três anos; para mim, três séculos. Enfim nutri coragem para doar o que restou. Benzi-me, destranquei o quarto, encarei retratos e abri o guarda-roupa. Cupins e traças roíam memórias. Tirei do cabide e sacudi a jaqueta. Do bolso, caíram uma carta e um teste de DNA.
11º campeonato · Bolso
Suas visitas sempre questionavam o terrário das baratas, e o mão de vaca prontamente mugia:
— É para manter os bolsos bem alimentados!
11º campeonato · Banda
Estenderam o tapete vermelho. A banda larga chegou ao interior. Cabo pra tudo quanto é lado. O mundo conectado, exceto eu. Papai, homem antigo, cedeu aos meses de insistência. Deliciosos 750 Mega. Ganhei vídeos, músicas, jogos, amizades, namoros — mas perdi o beijo de boa noite.
11º campeonato · Banda
Foi o primeiro a chegar. Era a estreia da filha. Encheram o auditório. Cortinas abriram. Enxugou a testa e pôs a flanela no ombro. Lá estava sua vida, tocando violoncelo, ao fundo do tablado. Cortinas fecharam. Esvaziaram o auditório. Enxugou os olhos e voltou a varrer. Foi o último a sair.
11º campeonato · Banda
Descobriu onde a mãe escondia: em cima do armário da cozinha. Arrastou uma cadeira, pôs um tamborete no assento e subiu. Tateou. Poeira. Tateou. Poeira. Achou. Desceu, limpou as mãos no vestido e rasgou a embalagem. Uma banda de chocolate para ela, outra para Mel.
11º campeonato · Ficção
Faz dois anos que recebi aumento. Até hoje espero o diretor gritar:
— Corta!
11º campeonato · Ficção
Uma ONG levou crianças ao cinema. Uma, duas, três, quatro semanas depois, ainda conversavam entusiasmadas sobre o filme. Após dois meses, a ficção das telas foi baleada pela realidade das vielas.
11º campeonato · Ficção
Anos após ser traído com um homem mais velho, ainda procurava o cheiro da ex-esposa nos lençóis. Porém, julgava humilhante aceitá-la de volta. Então, fez uma máquina do tempo e viajou para um ponto anterior ao da traição. Ao encontrá-la e beijar sua mão, não viu aliança — estava escondida na bolsa.
11º campeonato · Cobre
Seu Chico, metalúrgico e divorciado, já maquinava o plano quando assinou o contrato do seguro de vida.
— Cobre tudo, tudo, tudo! — garantiu o vendedor.
Exatamente uma semana depois, deixou um bilhete de despedida, convencido de que suas filhas seriam amparadas.
11º campeonato · Cobre
Toda sexta, Severino costumava vender cobre ao ferro-velho. A procedência era suspeita, mas nunca recusavam. Certa vez, sumiu por dois anos. Disseram estar preso. Porém, numa sexta qualquer, reapareceu puxando seu carrinho.
— Meu Deus! Que isso, Severino?!
— Minha Liberdade financeira!
11º campeonato · Cobre
De castigo, virado para a parede, o tacho de cobre é casa de teia e poeira, mas sinto ainda o perfume daquele doce de leite.
11º campeonato · Melancia
Ficou conhecida como "a menina que engoliu uma melancia".
11º campeonato · Melancia
— Grande e vermelha, com sementes; grande e vermelha, sem sementes; pequena e vermelha, com sementes; pequena e vermelha, sem sementes; grande e amarela, com sementes; ou grande e amarela, sem sementes, freguês?
— Mendel filho da...
11º campeonato · Melancia
Algibeira emagrece na cintura. Facão oxida na bainha. Fruto cabe inteiro na palma da Esperança, que o parte com um canivete. Mais que novamente, vísceras não esboçam vermelho. Esperar vira resignar, diluvia os olhos, prostra-se no deserto e, lembrando-se da surdez de Deus, cala-se no meio da reza.
11º campeonato · Ano
Em 2025, um 2026 colidiu frontalmente com um 2007. No primeiro, uísque 21 anos. No último, 33, 29 e 2.
11º campeonato · Ano
Ainda usa o calendário de 2005, ano de sua morte.
11º campeonato · Ano
Na barriga, a data de nascimento.
Nos joelhos, os anos de infância.
Nos pulsos, os de adolescência.
No rosto, os de casamento.
11º campeonato · Toa
Uma tartaruga-marinha estava presa a uma rede, e um tubarão-tigre aproximou-se. Ela viu a morte e trancou os olhos. — Não tema! — disse ele — Te atoo até a praia. A pobre mal teve fôlego para agradecer. Minutos depois, perto da areia, sangue na água. Ela precisava de nutrientes para pôr seus ovos.
11º campeonato · Toa
Saquearam um navio espanhol no Mediterrâneo e rebocaram-no rumo à Turquia. Bocejando e chupando laranja na proa, dois piratas apostaram, cada um, três safiras e um mosquete. O desafio era muito simples: ir de uma nau à outra pela toa. O corajoso partiu, e o covarde ficou — mais rico e intimidador.
11º campeonato · Toa
À deriva no Atlântico, pescadores clamaram ajuda a Alá. O mar borbulhou, e a toa tensionou de repente, como se puxada por um submarino. A tripulação ajoelhou-se no convés e elevou as mãos, glorificando, amiúde:
— Allahu Akbar!
Casablanca inteira soube do milagre.
Dias depois, arpoaram uma jubarte.
11º campeonato · Umbigo
2126 d.C.
Encontro de almas. Corações bailando salsa. Conversamos as horas extras do bar. Partimos para minha casa. Fechei a porta, pendurei a jaqueta no mancebo e fui empurrado contra a parede. Camisa, calça, blusa, saia: tudo no chão. Descendo aos beijinhos, parei na barriga. Não tinha umbigo.
11º campeonato · Umbigo
No quintal do viúvo, um casal de formigas mergulhou na piscina.
11º campeonato · Umbigo
Criança, questionava o segundo umbigo do pai. Adulta, agradece por ele não ter três olhos.
11º campeonato · Moeda
Subtraiu-se da aula de álgebra. Havia calculado os pontos cegos do monitor e desenvolvido uma fórmula para saltar o muro. Checou os lados, lançou a mochila, ganhou impulso, escalou e aterrissou. No bar do outro lado da rua, a alavanca salivava pelo dinheiro do lanche.
11º campeonato · Moeda
Ocorria um fenômeno estranho naquela igreja. Todos os fiéis ofertavam ao menos um centavo, porém o gazofilácio só vivia magro. As visitas dos moleques após as missas acenderam a desconfiança do diácono, que redobrou a vigilância, mas nunca os flagrou. Afinal, não furtavam; eram pagos.
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.
Escolha um campeonato e uma palavra, e leia um por um, até o último.