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Microconto

Campeonatos de microcontos · Autores

@ferrrmartins

59 microcontos nos campeonatos 11º e 5º.

11º campeonato 33

11º campeonato · Diálogo

A mudez era como se o teto caísse sobre suas cabeças. O diálogo era ainda pior: fazia o edifício inteiro ruir.

11º campeonato · Diálogo

- Um dia, logo eu volto. Ou, um dia, eu volto, logo.
- O que disse, menino?
- Está aqui, na lição. Veja.
- Não é dia, e nem logo. Uma palavra só, burrinho. E veja o acento, burro.
- Eu sei. Coloquei à prova pela primeira vez. Não gostei.

11º campeonato · Diálogo

Estavam fartos da mesmice. Escolheram juntos o artigo de luxo. A quem possa interessar; o diálogo.

11º campeonato · Fotografia

Desbotada, rasgada nas pontas, com manchas de sujeira e odiada pelo tempo, não valia mais nada. Atrás, a letra tremida, em caneta azul, ainda permanecia. "Lembre-se de mim. Vovó Maria. Belo Horizonte 1958."

11º campeonato · Fotografia

Com aquele fundo branco e o rosto centralizado em demasia, ela parecia um defunto. Pagou pelo serviço, não sem antes amaldiçoar os oito quadradinhos 3x4 que a reduziram àquela morte em papel.

11º campeonato · Fotografia

A imagem captou aquilo que ela tentou esconder por anos. Abraçada aos filhos e ao marido, o sorriso chegou, triunfante anfitrião. O olhar, todavia, a rasgou. Então, fez o mesmo com a fotografia - em dez pedaços.

11º campeonato · Bolso

Sorriu ao passar o ferro quente. Então era por ali que as bolinhas de gude escapavam. Buraquinho pequeno e perdas dolorosas. No peito, ela carregava um rasgo do mesmo tamanho.

11º campeonato · Bolso

Sua mãe sempre encontrara uma nota de dez no bolso do marido. Ela, nunca. Casara-se na era do PIX.

11º campeonato · Bolso

Começou a digitação. Que horror. Até o Google só pensava em política.

11º campeonato · Banda

- Onde fica a marcenaria do Seu Rosalvo?
- Lá para as banda do centro, segue reto, toda vida. Não tem como se perder.
- Agradecido.

11º campeonato · Banda

O ângulo de inclinação estava além do permitido. Ia afundar. De repente, uma mulher entrou na cabine do comandante e fez cara feia. "Ainda na banheira brincando de barquinho?" O menino deu de ombros. "Corrigir a banda é fundamental para a navegação, mamãe."

11º campeonato · Banda

Entrou na sala de aula e quase deu meia-volta. Suspirou e começou pela gramática. Ao final, um dos alunos a presenteou com uma banda de maçã. Ser professora tinha lá suas vantagens.

11º campeonato · Ficção

Vivia no mundo da Lua. Das estrelas, fez família. Planetas, vizinhos. Asteroides e cometas, primos de terceiro grau. Fazia da vida sua própria ficção.

11º campeonato · Ficção

Fechou os olhos e o cenário mudou. Dentro dela, tudo era criação; não existiam bombas nem tetos caindo. Ao reabri-los, convenceu-se: era ficção. Tudo ficaria bem.

11º campeonato · Ficção

Absorto na leitura, o psiquiatra não sentiu o tempo passar. "Livro científico?" escutou alguém perguntar. Depressa, fechou a obra. Se vissem a ficção que lia, sua credibilidade tombaria.

11º campeonato · Cobre

O vestido era de matar. Sentia-se absurdamente linda. Saiu do quarto e ouviu atrás de si:
— Cobre o decote, mamãe!

11º campeonato · Cobre

Ela enxergava a vida em tons de cinza; por vezes, no completo breu. Chorava constantemente, mas ninguém via lágrima alguma. Certa vez, tentou tirar aquele manto, mas a voz chegou como um trovão. "Cobre logo! Quer me envergonhar?" De imediato, recolocou a burca.

11º campeonato · Cobre

Estava com sono, mas desejou tocá-lo. Passou o dedão na perna dele. "Cobre logo os pés e me deixe dormir, mulher". Apesar da frustração, sorriu. Ao menos ele conhecia suas manias.

11º campeonato · Melancia

Estava horrorizado. A avó tinha razão. Nunca se deve engolir uma semente, senão ela cresce na barriga. A prova estava ali: sua mãe carregava uma melancia inteira sob o vestido. Ela nunca coava os sucos; era mais inocente que o filho de quatro anos. ​Dias depois, o bebê nasceu saudável.

11º campeonato · Melancia

Sentiu o cheiro de terra molhada. Agachou-se e abraçou o fruto pesado. E, então, lembrou-se dela: sempre doce, de bochechas avermelhadas e até as sardas evocavam pequenas sementes. Ele desejava que ela nascesse outra vez.

11º campeonato · Melancia

A FRUTA DA DISCÓRDIA

Desferiu um chute na caixa de papelão, certo de que atingiria aquela besta de mulher. Não contava, porém, com a melancia escondida lá dentro. O estalo do pé ao quebrar foi o sinal para que ela gargalhasse e partisse, vitoriosa.

11º campeonato · Ano

Determinou que seriam os melhores doze meses de sua vida. No dia seguinte à promessa, a luz intensa do farol a cegou; ela voou, e aqueles votos alcançaram o céu.

11º campeonato · Ano

Chorou na primavera, e se encolheu no verão. No outono, nada viu, mas no inverno renasceu. Foi um bom ano, e ainda estava em julho.

11º campeonato · Ano

É o meu ano, pensou com o diagnóstico de finitude nas mãos. A fé venceria aquele veredito de papel.

11º campeonato · Toa

Variações do Ócio

​"O que significa esta bagunça? Louça, roupa, tudo imundo!" "Você não disse que eu era à toa?", ela apenas perguntou.

11º campeonato · Toa

No Velho Chico, a canoa descia de toa. Apesar do surubim aos pés, não se alegrou. A intenção era devolução. Mas sua vida também era assim, à mercê da toa.

11º campeonato · Toa

Mineiro, nunca tinha visto o mar. Escolhera a Bahia como Porto Seguro. "Tô à toa", disse para ninguém, mas disse em voz alta. "O que manda, chefe?", um barrigudo perguntou. Ambos diante da barraca Tôa Tôa.

11º campeonato · Umbigo

CARAMELO

Guardou o umbigo em uma caixinha. Em breve, ele estaria no jardim, perto das roseiras. Só não contava que Biscoito o comeria de sobremesa no dia seguinte ao plantio.

11º campeonato · Umbigo

Fina como minhoca, cinco dedos abaixo do umbigo, com quatorze centímetros de comprimento. Ali estava a marca. Antes, nunca lhe dera atenção. Era só um órgão, afinal. Agora que não o tinha mais, sentia como se tivesse sofrido um roubo seguido de morte.

11º campeonato · Umbigo

Apesar de suas oitos patas, pensou que seria incapaz de percorrer aquele caminho. Suas costas pareciam tão grandes como casco de tartaruga. Quando chegou no vale, sugou, agradecido. Pelo que soube, ali abrigou um cordão que alimentava um feto.

11º campeonato · Moeda

O grande dia chegara. Sabia que a despedida seria dolorosa. Pediu desculpas pelo que estava prestes a fazer, e uma bolinha de lágrima escapuliu na cerimônia. Então jogou o porquinho no chão. Mil pedaços para quase nenhuma moeda.

11º campeonato · Moeda

Estava de costas para ela, pronto para lançá-la por cima do ombro esquerdo, como manda a tradição. Engoliu saliva ao apertar a pedrinha entre os dedos. Desejou ter ao menos uma moeda daquela fonte.

11º campeonato · Moeda

Ficou imóvel diante da descoberta. Não queria mais o pirulito. O avô estava ali, estampado naquela ficha prateada. A careca e o bigode eram iguaiszinhos. Fechou os dedos e o sentiu em seu coração. Sorriu para a tia da mercearia.

5º campeonato 26

5º campeonato · Palhaço

Título: Nu

Era tarde quando finalmente tirou a roupa espalhafatosa. Todo aquele colorido lhe causava náuseas. O sapato amarelo, a peruca azul, o nariz vermelho, a maquiagem extravagante. Encarou sua imagem no espelho. Nu como deveria ser. Nu como amava ser. Nudez também na alma. Ele detestava as cores porque dentro de si abrigava somente escuridão.

5º campeonato · Marca

Título: Irmãos

Lá estava ela. Tão viva como uma flor na primavera. Pulsando em sua pele. Latejando, queimando. Um castigo que nunca seria esquecido. Pensou em colocar uma tatuagem por cima, pelo canto, em cada lado. Desistiu. A queimadura a lembraria de que o amor era irmão da loucura.

5º campeonato · Marca

A brincadeira consistia em correr e tocar o primeiro amigo que encontrasse. "Estátua" - diria entusiasmado. E foi o que fez. A criança perseguida ficou imóvel após sentir toque e ouvir a palavra de ordem. O perseguidor, então, lhe deixa uma marca: um leve beijo nos lábios.

5º campeonato · Baralho

Uma carta na manga. Cinquenta e uma no coração.

5º campeonato · Baralho

As cartas voaram quando o carro bateu de frente ao caminhão. A velocidade perdeu para a inércia. Tudo parou, até mesmo os segundos. Sangue escorria por toda parte. Antes de fechar os olhos, o motorista despediu-se da única testemunha que o encarava. Davi. O Rei de Espadas sempre lhe dera sorte.

5º campeonato · Baralho

Cortou o dedo ao manusear a carta. Maldição! Era sua sorte que lia. O sangue pingou silenciosamente sobre o agressor em forma de papel. Virou a carta a fim de verificar seu destino. A foice. Se tivesse que renascer, que assim seja.

5º campeonato · Cebola

Olhou para a folha de papel e bufou ao ler a frase: "Minha mãe precisa de sebola senhor Eustáquio. Ela te paga semana que vem". Amaldiçoou aquela mulher que sempre enviava o filho para o trabalho sujo: comprar fiado. Não observou a grafia errada. O importante era receber o valor da cebola.

5º campeonato · Cebola

A mãe olha a plantação, a terra molhada, batida, remexida. "Por que cebola?", pergunta ao menino. Ele, com Maurício de Sousa em mãos, responde entusiasmado: "Quero muitos amigos Cebolinha!"

5º campeonato · Cebola

CONHECEREIS A VERDADE...
Ela sempre soube que o amante era alérgico. Sua garganta fechava como se mãos invisíveis apertassem seu pescoço. Em questão de segundos, línguas de fogo lambiam sua pele e sua visão era tomada pela escuridão. E justamente por possuir este conhecimento, picou a cebola em minúsculos pedaços e refogou junto ao arroz. O prato estava pronto. Ele comeu com olhos de gratidão. Ela, de libertação.

5º campeonato · Nota

TÍTULO: FÉ

Olhava para o chão, cabisbaixo, ombros caídos, desejando que encontrasse qualquer valor por ali, nas vias, perto de um bueiro ou escondido nas raízes de alguma árvore. De repente, lá estava. A tartaruga marinha. Era pouco, tudo bem. Estava suja, tudo bem também. Guardou a nota no bolso com a alma esperançosa. Um pouco de fé não faz mal a ninguém.

5º campeonato · Nota

TÍTULO: O som da esperança
A melodia estava quase pronta. Bastava uma nota e todo seu futuro se abriria como asas. E voaria com as águias, a canção alcançado os anjos e o próprio Deus.

5º campeonato · Nota

"Publicação independente" - estampava na ficha catalográfiica. Quase desiste, pela inconfiabilidade. Até que abriu em uma das primeiras páginas....
'NOTA DA AUTORA: E de tanto ler, passou a escrever. Nas páginas se aventurou. E ao lado de sonhos, caminhou.'
Mudou de ideia. Acolheu aquele sonho. Comprou o livro.
imleca
Enquanto eu esperava pelo resultado da prova eu pensava como é que um número poderia definir o resto da minha vida

5º campeonato · Desejo

De bolsos vazios, sem peixes nem pão, sem nada nas mãos. Mas tantos desejos no coração.

5º campeonato · Desejo

Há desejos impossíveis de alcançar. Sonhos que não foram feitos para sonhar. Faz de conta. Fábulas inúteis. E mesmo assim, tentamos, acreditamos, persistimos. Ingenuidade? Somos velhos infantis? Ou sonhadores por nascença? O inexequível torna-se uma mera palavra para mentes teimosas.

5º campeonato · Desejo

O gênio, impaciente, exclamou: "Diga-me seu último desejo". O garotinho, que mal sabia contar, olhou para as mãos. Em uma, balas de caramelo, na outra um pacote de pirulito. Já tinha tudo que desejava. O gênio adivinhando seus pensamentos, suspirou decepcionado. Carregava todo o poder do mundo e sua lâmpada estava sob domínio de uma criança de quatro anos. Repetiu a ordem e esperou pela decisão do seu mestre. Decisivo, o menino disse, por fim: Quero que todas as crianças do mundo sejam felizes por um dia, caramelo e pirulitos. É o meu decreto.

5º campeonato · Ninguém

Não estou bem. A dor me corrói, torce minha alma até não sobrar esperança alguma. Deito e logo não pego no sono. Acordo sem o fôlego da vida. Respiro a essência do abismo e me afogo na solidão. Eu contaria se alguém perguntasse. Dividir as vigas da cruz. Ninguém perguntou.

5º campeonato · Vazio

A vida inteira estudou os buracos negros. Mal sabia que o fenômeno já acontecia dentro dele: toda luz que um dia conhecera aprisionada dentro do seu vazio.

5º campeonato · Vazio

Tinha apenas doze anos e pela primeira vez, amou a burca negra que usava, a telinha sobre os olhos que deixava o mundo gradeado. Escondia não apenas o corpo, mas a sombra onipresente do vazio em sua alma e coração.

5º campeonato · Vazio

- Gosto de preencher todos os espaços vazios.
- Com o quê?
- Com camadas de amor.
- Eu falava do bolo!
- Eu também.

5º campeonato · Estrela

Inúmeras vezes perguntei à minha mãe sobre a escolha do meu nome. "Deixe-me em paz." Era só o que dizia. Parei de questioná-la. A verdade estava enterrada. Até que encontrei o seu diário - velho, gasto, manchado. Construa a sua tenda com tijolos de ignorância, pensei ao término da leitura. Estrela porque no dia que nasci, Dona Maria viu uma cadente no céu. E desejou nunca mais ter filhos na rua.

5º campeonato · Estrela

"O sol nasce para todos". Era o que meu pai dizia. E a lua? - questionei uma vez. "Ah... a Lua é diferente, um sujeito carrancudo, severo, um pouco taciturno, não é como a grande estrela, a mãe de todos. Todavia, é um corpo relevante, garante a nossa segurança." Então entendi que no céu também existe uma família. A mãe, o pai e os filhos planetas.

5º campeonato · Estrela

Estrelas na imensidão do céu, outras no infinito do mar. Faltava então estrelas na terra. Foi assim que as mães nasceram.

5º campeonato · Pétala

Brincava de bem-me-quer com pétalas de rosa. Talvez assim, sem margaridas, acertasse o destino que sonhava.

5º campeonato · Corpo

Ele conhece cada parte do meu corpo. Palmo a palmo, gostaria que esquadrinhasse o meu coração.

5º campeonato · Corpo

A criança leva as mãoszinhas às costas. Contorce, retrai, estica, puxa. Esgota-se. "O que há no seu corpo, passarinha? Coceira?", pergunta a mãe. "Sinto minhas asas nascendo", responde a garotinha na cadeira de rodas.

5º campeonato · Corpo

O encontro de duas almas. Um corpo nu diante de uma tela de pintura. Um artista espera, imóvel, paciente. Os olhos do outro exploram, vigiam, contemplam. Até que a tela branca ganha cores dos dois mestres e a arte nasce, renasce, floresce.

Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.

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