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Microconto

Campeonatos de microcontos · Autores

@mfornazari

23 microcontos no 11º campeonato.

11º campeonato · Bolso

IMPERMANÊNCIA

O casal costumava contemplar o pôr do sol no Parque Tanguá. Os tons avermelhados e violáceos, mudando a cada segundo, geravam algo mágico; mas, para ele, a sensação de eternidade surgia quando ela colocava a mão no bolso de trás de sua calça jeans.

11º campeonato · Bolso

MATERNIDADE NOS ANOS SETENTA

— Nasceu, seu Élio! É menino, parabéns! — anunciou a freira na porta do centro cirúrgico. Com a euforia das boas novas, o jovem pai colocou o cigarro aceso no bolso do paletó.

11º campeonato · Bolso

INADIMPLENTE

O menino morreu na quebrada. Bala perdida. A moeda no bolso seria o dízimo da mãe. Deus lamenta.

11º campeonato · Banda

Ah, a hospitalidade manauara! Sexta-feira, o consultor curitibano – todo sério e engomadinho – tentou em vão se despedir dos clientes. Foi praticamente arrastado para uma festa de família em Manacapuru, onde, pela primeira vez, rendeu-se a uma banda de tambaqui. Voltou feliz para o frio do Sul.

11º campeonato · Ficção

TRINTA

No máximo trinta dias. Prognóstico médico. Em coma, vivia num mundo idílico.

11º campeonato · Ficção

FICÇÃO

Não podia aceitar sua ausência. Programou a IA com todos os dados disponíveis de voz, vídeos e texto. Ela interagia perfeitamente como se não tivesse morrido.

11º campeonato · Ficção

K

Lia Kafka e se via envolto numa atmosfera onírica Nos corredores do hospital, esperava encontrar jovens moças pervertidas. Nas ruas as águas-furtadas lhe chamavam a atenção. Duvidava da realidade.

11º campeonato · Cobre

RISCO

Os longos e grossos eram os melhores. Sua obtenção envolvia riscos elevados, embora o preço compensasse. Era por isso que o pequeno Luis não parava de roubar cabos de cobre.

11º campeonato · Cobre

TRILHO

Quando criança, Luis brincava nos trilhos da RFFSA próximos da Estação de Uvaranas. Cortava e desencapava pequenos segmentos de cabos elétricos e os deixava sobre os trilhos para que o trem passasse por cima. No dia seguinte vendia na escola as pulseirinhas de cobre.

11º campeonato · Cobre

ANCESTRALIDADE

A descoberta do Cobre marcou a entrada da humanidade na era dos metais. Maleável e dúctil, era usado na confecção de copos e ornamentos.
O pequeno Luis, vendedor de pulseirinhas e ladrão de cabos, jamais imaginaria o trabalho de seus arquiancestrais.

11º campeonato · Melancia

CINCO

— Boa tarde, Seu Chico! É esse o preço mesmo? — perguntou o piá, cabreiro.
— É um real mesmo. Deu muito.
Luis tirou cincão do bolso.
— Me dá cinco.
— Vai levar como? — perguntou Seu Chico com ar de riso.
— Ô piazada, festa da melancia! — gritou para os quatro amigos do outro lado da rua.

11º campeonato · Melancia

MELANCIA

A inexorabilidade da entropia foi provada por Boltzmann quando o fruto do Citrullus lanatus restou esfacelado sobre o piso do laboratório.

11º campeonato · Ano

ÁTIMO

A adrenalina, o coração disparado, a venda nos olhos e, diante deles…
a vida toda;
o último ano;
o último mês;
o último dia;
última hora;
último minuto.
Sorriu, um átimo antes da abertura do cadafalso.

11º campeonato · Ano

TEMPO

Desde os trinta, Luis preocupa-se em demasia com a passagem do tempo. Ano após ano, as primeiras rugas, os primeiros cabelos brancos e a primeira brochada, soaram como um alerta dessa passagem. Considerava os calendários como relógios muito lentos. Eles mostram, com sua lerdeza, a inexorabilidade da sua própria finitude.

11º campeonato · Toa

2150

O raio gravitacional era utilizado para posicionar as naves nas docas da estação espacial na órbita de Titã. O velho, operador do equipamento, contava que seu bisavô fora prático no Porto de Paranaguá e insistia em chamar a ferramenta tecnológica de “toa”.

11º campeonato · Toa

A ESMO

Costumava sair sem destino, entregue ao acaso, no centro de Curitiba: Rua XV, Boca Maldita, Tiradentes, Largo da Ordem, São Francisco, Saldanha Marinho, Bar Triângulo, Biblioteca Pública, Armazém Califórnia, Bar Folia, Gato Preto. Não havia nada melhor do que flanar.

11º campeonato · Toa

DE VARDE

Jeanne, baiana arretada, ficava muito irritada com os regionalismos do marido curitibano.
– Tá fazendo o que, meu filho?
– Tô de varde, amor.
– Sabe nem falar! É um à toa mesmo!

11º campeonato · Umbigo

A manobra de catapulta gravitacional em Júpiter ocorrera há cem anos. Os bancos embrionários, com umbigos biossintéticos, eram mantidos em animação suspensa e, agora, cuidados pela quinta geração de tripulantes. Sem a perspectiva de outro planeta viável, vagavam no silêncio e na solidão interestelar.

11º campeonato · Umbigo

Eulália teve três filhos e uma hérnia. As cesáreas, até meados dos anos oitenta, eram feitas pela técnica umbilicopúbica — exatamente o período em que teve seus filhos. A hérnia foi consequência disso.
— Devolvam meu umbigo! — costumava dizer sempre que queria ir à praia.

11º campeonato · Umbigo

BUSSUNDA

Moisés tinha uma hérnia umbilical. Uma coisa horrorosa! Seu sonho era ser como o Bussunda, que guardava cinco moedas de um real no umbigo.

11º campeonato · Moeda

Pela manhã e à noite, Dante fazia a pequena travessia na balsa que liga a Ilha da Gigoia ao restante do Rio: religiosamente, a moeda depositada na mão esquerda de Caronte.

11º campeonato · Moeda

RIMBAUD À BRASILEIRA

Na quebrada, um moleque morreu de bala perdida. No bolso, a moeda da viúva pobre, que sua mãe daria como dízimo. No céu, Deus lamenta.

11º campeonato · Moeda

CENTAVO

Tinha quarenta e um anos quando pediu demissão e decidiu abrir a própria empresa. No fim do último dia de aviso, já na rua, viu o lampejo de um centavo na sarjeta. Um sinal: seria o próximo Tio Patinhas.

Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.

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