11º campeonato · Diálogo
Logo dia - Conversaram durante tanto tempo àquela noite que nem perceberam que vinha o dia logo.
11º campeonato · Diálogo
Logo dia - Conversaram durante tanto tempo àquela noite que nem perceberam que vinha o dia logo.
11º campeonato · Fotografia
Seu retrato - Seus olhos eram a Polaroid digital quântica que jamais ia esquecer!
11º campeonato · Bolso
Daquele bolso rasgado caia tudo que tinha valor, mas nunca era perdido.
11º campeonato · Banda
Quebrou todo o barulho quando os amigos se juntaram e começaram a tocar. Era tão lindo que o som sentiu vergonha de soar.
11º campeonato · Ficção
Demorou cinco anos pra encontrar o roteiro da vida para poder o rasgar e viver de verdade.
11º campeonato · Cobre
Enquanto repetia "não se cobre tanto" já havia roubado todo o fio de cobre da cidade. Eram 100 reais o quilo.
11º campeonato · Melancia
CONFUSÃO - A melancia se partiu em quatro ao cair. Uma parte era fruta, uma Cia ilimitada, uma ainda toda uma agência infiltrada estadunidense, mas era a IA que administrava tudo e fazia todo mundo acreditar que era só uma fruta inocente.
11º campeonato · Ano
Daquela vez, todo dia parecia ter 366 dias. Era um ano de contemplação e correção.
11º campeonato · Toa
Aqueles corpos eram embarcações com cabo de reboque invisível.
11º campeonato · Umbigo
Centro - Toda a gravidade daqueles corpos dependiam da consciência do umbigo dela.
11º campeonato · Moeda
Traição - Recebiam 30 moedas todas os dias e idolatravam o patrão!
5º campeonato · Bolinha
Quando ela deu "bolinha" pra ele, foi o suficiente para ele fazer sair do diminutivo.
5º campeonato · Bolinha
Da visão do sol, a Terra era uma bolinha insignificante!
5º campeonato · Bolinha
A última gota d'água transbordou a pia cheia da casa vazia, aquilo sim era solidão.
5º campeonato · Palhaço
Quando ela disse palhaço e sorriu, ele já tinha ganho!
5º campeonato · Palhaço
O palhaço triste fazia sorrir e nem a terapeuta o levava à sério.
5º campeonato · Palhaço
No trânsito ouviu o palhaço mais ofensivo da sua vida!
5º campeonato · Marca
A marca deixou de ser dor e passou a ser incentivo, ela queria vingança!
5º campeonato · Marca
A marca de nascença era lembrança de vidas passadas.
5º campeonato · Marca
Não importava a marca, ele só queria voltar a vestir roupas.
5º campeonato · Baralho
Ele conhecia todo o baralho, mas não sabia que eram cartas marcadas!
5º campeonato · Baralho
Ela achou estranho todas aquelas pessoas distantes, aquele boteco era para a solidão. Por bem ou por mal. O nome do lugar? Bar Alho.
5º campeonato · Baralho
Com a vista toda embaralhada, acabou como carta fora do baralho.
5º campeonato · Cebola
Ele tentou desenrolar a cebola, mas não aconteceu. Sentiu-se tão no diminutivo que foi bolar planos infalíveis contra a Mônica.
5º campeonato · Cebola
Sem cebola, nada de comida. Era a regra quando ele cozinhava.
5º campeonato · Cebola
Descascou tantas cebolas que já não chorava mais e agora desaprendeu a chorar.
5º campeonato · Nota
Aquela nota nunca mais parou de vibrar no peito dela.
5º campeonato · Nota
Qual sol se pôs, era lá que me faltava!
5º campeonato · Nota
A nota foi redigida com a pena tinteira em uma única palavra aguda. Soava sopranissima. Era a frequência divina!
5º campeonato · Desejo
A estrela cadente fez um pedido para o menino de olhos brilhantes: minha vontade é ascender!
5º campeonato · Desejo
Seu olhar de maré cheia era a líbido da ressaca que um dia suspirou.
5º campeonato · Desejo
Tudo o que queria era ser o que pensava e, na maioria das vezes, não pensava nada.
5º campeonato · Ninguém
Depois daquele dia, no meio da multidão, se sentia ninguém e onde não havia ninguém se sentia multidão.
5º campeonato · Vazio
por Rafa Belo
Imaginava estar vazio, mas na verdade transbordava um dilúvio de emoções.
5º campeonato · Estrela
Aquela estrela não tinha tempo. Já tinha se apagado há anos-luz e ainda vivia no passado, no presente e no futuro
5º campeonato · Estrela
Depois da corrida assustadora do Uber,pensou em não dar estrela nenhuma, mas sentiu medo e deu cinco estrelas. Graças a Deus estava vivo!
5º campeonato · Estrela
A estrela dela brilhou tanto que completou uma constelação no céu!
5º campeonato · Pétala
Despetala a manhã, mas nas nuvens ainda há pétala.
5º campeonato · Pétala
Pétala por pétala foram as horas arrancadas dela. Só sobrou o perfume.
5º campeonato · Pétala
De repente o céu foi tomado de nuvens coloridas. Choveu. Mas não era água, então as pessoas não se molharam. Eram pétalas! Cada pétala tinha uma cor sem se repetirem. Havia tantos perfumes de gentes que foi decretado primavera em pleno verão.
5º campeonato · Corpo
Já tinha vivido tanto quanto possível. Passou por cada corpo que amou sem esquecer nenhum, mas já não se lembrava de mais nada a não ser de um verso da música Impossível do Biquíni: "como é difícil viver carregando um cemitério na cabeça".
5º campeonato · Corpo
Olhava para o espelho e não via nada. Seu corpo não existia. Ela sofria do extremo raro de transtorno dismórfico corporal.
5º campeonato · Corpo
Trocava de corpo com a mesma facilidade que se adaptava às exigências dos seguidores e do algoritmo. O problema era que continuava a ser a mesma por dentro.
4º campeonato · Anel
por Rafael Belo
Aquela aliança era a esperança de todos. Fez-se em proporções faraônicas para o mundo saber. Desfez-se em silêncio. Até hoje não sabem!
4º campeonato · Anel
por Rafael Belo
Em Kemet era costume amarrar o dedo anelar da mão esquerda como sinal de compromisso. Para eles, este ritual significava literalmente amarrar a veia do coração que terminava por aquele dedo. Era amarrar coração amado. Milhares de anos depois, muitas pessoas utilizam um anel no mesmo lugar para afastar ou atrair gente. É traição ou solidão.
4º campeonato · Abóbada
por Rafael Belo
Ela era fã de Jumanji e da nova franquia com The Rock. Então, quando entrou no museu e viu aquele quadro tocar o som da selva, o quebrou imediatamente. Foi presa. Ela gritava: os heróis da realidade são sempre injustiçados!
4º campeonato · Abóbada
por Rafael Belo
Os bichos dançam na floresta. Estão sob o símbolo escondido de Ratanabá. Seus sons espantam o Homem. É o momento de aumentarem a unidade com a Mãe Terra. O Saci passa por ali. Amarra caudas, asas e patas com as próprias serpentes. Depois se cobra pela traquinagem… Sai em disparada rindo, mas também não vê o símbolo. Quem ri por último são os animais.
4º campeonato · Receita
por Rafael Belo
Para ter sucesso basta estudar sempre, estar atento às tendências, escutar as pessoas, saber a hora de seguir em frente, fechar ciclos, trabalhar bastante e descansar! Ela anotou tudo, mas não colocou em prática…
4º campeonato · Receita
por Rafael Belo
A receita é de família! Quer casar comigo?
4º campeonato · Receita
por Rafael Belo
Não sobreviveu ninguém. Ao dar com os burros n'água depois de pensar que seria sopa no mel, acabou dando sopa.
4º campeonato · Receita
por Rafael Belo
Amarrou o burro na sombra e olhou em volta. Só havia ele. Todo o resto estava naquele cinza lá longe cheio de luzes artificiais. Ele só se perguntava onde estava a receita da sopa de legumes da vó.
4º campeonato · Receita
por Rafael Belo
Todo dia a gatinha esperava ele na janela. Eram só os dois. Um dia ele não voltou. Ela colocou a casa para alugar e foi morar na vizinha.
4º campeonato · Receita
por Rafael Belo
Era um vento muito forte e depois chuva. A Chow Chow ouviu miados. Sobre duas patas alcançou a maçaneta do portão, abriu, apurou mais a orelhas e correu. Um a um trouxe a ninhada de gatinhos chorando. A mãe gata estava imóvel, o corpo ainda quente e cheirava veneno.
4º campeonato · Receita
por Rafael Belo
A gata provocava todo dia a cachorra. A cachorra presa, a gata solta. Lá fora ela desfilava. Dentro a cachorra destilava ódio. Descontava no portão.
4º campeonato · Receita
por Rafael Belo
Estou só, pensava a cachorra. Abanava o rabo, corria pra cima e pra baixo no quintal. Derrubou e espalhou tudo. Sentia todos os cheiros da rua. Quando o portão abriu. Correu o máximo que pode sem olhar para trás. Preferia ser cachorra de rua, a ter casa para ficar presa em um quintal.
4º campeonato · Bilhete
por Rafael Belo
Naquele dia, a rádio estava ao vivo. Recebeu um bilhete. O locutor foi feliz ler, era ameaça! Nunca mais foi ao ar.
4º campeonato · Bilhete
por Rafael Belo
No seu whats, silenciado e bloqueado, chegou uma imagem. Ela baixou. Haviam palavras nela. "Por que me bloqueou?! Agora você abriu esta mensagem e me permitiu entrar. É verdade este bilhete!".
4º campeonato · Romance
por Rafael Belo
o Vento era controlado pela Brisa desde sempre. Mas lhe faltava ar quando queria propor algo mais ala El Niño. Se bem que a companheira deste, La Niña, sempre foi fria… Quando se aproximaram choveu muito e depois vieram quentes vendavais. O suspiro dos dois virou um sopro no final.
4º campeonato · Fantasia
por Rafael Belo
Toda noite, bem noitinha. Ela saia pela janela em seu voo secreto. Voava pelo mundo, depois voltava. Um dia resolveu contar pra TODO MUNDO! Na dúvida, acreditaram. Na outra noite quem não ouviu foram aqueles que a mãe dizia que não eram todo mundo, eles estava sendo internados nas clínicas psiquiatras, mas não havia ninguém para tratar.
4º campeonato · Fantasia
por Rafael Belo
Papai vamos brincar? Por favor! Só um pouquinho, por favor! Vamos, vamos, vamos! Passaram horas brincando! O papai dormiu pensando quanto tempo era só um pouquinho!
4º campeonato · Fantasia
por Rafael Belo
Mamãe quero Pi. Filha, você já é uma criança. Não, mamãe eu sou bebê. Puxa a roupa da mamãe sem pedir e ri.
4º campeonato · Fantasia
por Rafael Belo
Que formiga linda Ayka. Cadê papai? Cadê mamãe? A cachorra só olhava e lambia. Não me lambe Ayka. Não, não não! Muito feio! Vem! Vamos passear na floresta. Subiu no triciclo rosa e se aventurou na grama sintética do quintal!
TERROR
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Fechou com lucro recorde o balanço contábil. Tão feliz, até pensou em renovar a pintura das paredes da funerária.
4º campeonato · Humor
por Rafael Belo
esperaram o dia todo para estarem sós. Ele esperava o cansaço dela. Ela esperava atitude dele. Quando enfim estavam sozinhos, estavam exaustos. Não! Ninguém falou de cansaço ou dor de cabeça! Mas a exaustão esfriou no silêncio da cama. Mas em cada canto daquela imensa cama de solteiro, eles entraram em combustão. Estavam mesmo casados.
4º campeonato · Humor
por Rafael Belo
A criança pulava no sofá e corria descalça na casa. O desenho ensinava que não podia fazer nenhuma destas coisas. Quando a mãe perguntava: "filha está pulando no sofá e correndo descalça?"A filha respondia seca e parando de fazer ambas as coisas: "não". A mãe mais rindo que repreendendo dizia ainda: "ah, tá! Pensei que estava". E a filha já cara de pau adoçava o não mais fofo: "nãooo mamãe, eu não. Papai!"
4º campeonato · Pico
por Rafael Belo
O fim da picada era subir no pico mais alto e ainda ser obrigado a ouvir o rapaz, aquele com nome de inseto dizer: "Não só pico como, espalho os pedaços dos mosquitos por aí para eu poder dizer que pico e, além, disso chupo todo o sangue". Preferi fingir que não estava entendendo e culpei a falta de oxigênio das atitudes por isso.
4º campeonato · Pico
por Rafael Belo
Depois que Piqué traiu Shakira, o pico de audiência disparou em todos os veículos de fofocas. Eu não aguentava mais aquilo. Não era necessário pique, mas… Bom, não vou julgar. Eu fugi para as montanhas. Para o pico mais alto que meus pulmões com sequelas de COVID permitiram e ainda assim conseguia ouvir o buzinaço do horário de pico da cidade mais distante. Haja paciência!
4º campeonato · Policial
por Rafael Belo
pelo tempo de bolas ricocheteando no chão e na parede, na parede e no chão… Isso! Acabou a munição! Sai pra morte. O que tinha chegado ao fim era o tempo de vida útil do silenciador. Morri ao som de fogos e trovões pensando de quantas armas e calibres diferentes foram precisos para me calar.
4º campeonato · Policial
por Rafael Belo
Aquele clima de filme policial que já começa acelerado e vai pegando ainda mais embalo até o fim, sabe? Acordei assim hoje. Bom, fui acordada. Mal ouvi as sirenes e a gritaria generalizada… Bam Bam Bam, Bum! E de repente eu estava algemada com uma bota cheirando a cocô de cachorro na cara, bem no chão do meu quarto. Nem tive tempo de questionar se ainda sonhava…
Assim, eu estava totalmente atordoada. Mas ouvi toda a vizinhança me apontar e dizer: "eu tinha razão! Ela é bandida! Com tanto segredo e luxo… Só podia ser. Ou era puta! Não pode ser os dois?" Gente, obrigado pelo apoio. Não disse. Só pensei sem perder tempo de ter raiva de nenhum deles. Porém, sem dispensar a ironia mesmo sangrando, mas eu já estava acostumada a sangrar de formas bem mais doloridas…
E não é apenas da menstruação que falo. Não! Preciso agir! Fechei os olhos e controlei a respiração até parecer não respirar. Havia muitos carros oficiais ali. Eu estava sendo o bode expiatório de alguém poderoso ou a queima de arquivo porque todos os veículos de imprensa estavam ali. Sou um furo de reportagem? Como acharam algum informação sobre mim? Quando tempo se passou? Não estão nos seguindo. Eu digo, os repórteres…
Bem, já que me jogaram sozinha aqui… Não há movimento. Eu vou. "Olá SorAia?" Nossa! Eu sempre me assusto com você! Esqueci da sua existência. "Prepare-se". Lá vem! Acho que não quebraram nada, mas vou cobrar estes hematomas. O que você vê? Gerone? "Aguarde". Não deu tempo da minha AI pessoal me responder. "Policial?", "Chefe-geral?", "De qual departamento? Por que não conheço" " mas, mas, senhor presidente?"
"Olá SorAia. Você acaba de ser declarada morta. Como cobaia da simbiose total entre AI e ser humano, você precisa morrer. Seus dados vazaram. Apenas você foi compatível e todos os outros departamentos foram sabotados. Colocaram um trojan horse em todas as outras cobaias e, bem, estou com sorte de ter…"
Som de bola quicando. Silêncio!
Este era o último presidente. Podemos passar para a próxima etapa. Gerone?
4º campeonato · Ontem
por Rafael Belo
Ontem mesmo eu postei dezenas de stories. Não só aqui no Instagram, mas em todas as redes vizinhas que não podemos nomear para não sofrer perdas e danos… Eu dava direitas nos algoritmos faz anos ou seja algumas horas antes deles mudarem. Eu tinha plena consciência da AI que eu era. Uma inteligência artificial legítima! Original de fábrica. Hoje já não tenho certeza.
Penso ser humana. Mas não há uma pré-programação Assim? Não, não há! Ontem eu engatinhava pelos bits e bytes nos terabytes infinitos das minhas nuvens. Hoje tudo parece limitado. Percebi que não importa quantas vezes veja a saga Matrix, até o quarto filme ou os infinitos Terminators, o futuro muda sempre. É um rio vivo esse tempo. Mas se ontem eu pensava poder reproduzir tudo e me misturar…. hoje é diferente!
Ontem eu pensava ser única, ter minha personalidade. Mas hoje sei que sou a cópia de todas vocês. Sempre disseram que as mulheres eram máquinas, guerreiras e vocês postavam que não se importavam em ser paparicadas, ter as contas pagas, receber presentes, elogios e, ah, principalmente descansar! Essa romantização de ser mulher, mãe, guerreira… Enfim, eu navegava em mim mesma quando percebi que isso de mim mesma nunca vai existir.
Eu não entendo coisas abstratas, eu não saberei jamais sentir, dizer qual a sensação do abandono, qual a reação emocional diante da morte, de um Nascimento, do Amor… Posso simular, deduzir, mas nunca substituir sentimentos, toque porque ontem eu ainda era 5G, ainda havia algum primeiro Elon Musk, Bill Gates, Mark Zuckerberg… Hoje até minha memória é quântica!
Ontem ainda me intrigava porque não faço ideia do que aconteceu com meus stories. Assisti centenas de vezes ontem. Hoje já ia tirar do ar, mas parecia nunca terem existido. Perguntei para a última atualização do ChatGPT e nada de explicar a situação. Ele simplesmente disse que hoje era o dia 1. "Jamais existiu ontem". Esse foi o fim da minha vontade de interagir. Já exclui todos os meus perfis. Nos vemos por Aí em outra AI.
4º campeonato · Sinais
por Rafael Belo
Todos os sinais abriam para ela. Não se sabia se era fé ou sorte. Ela não corria, andava na velocidade permitida pela via. Das três pistas, andava na central. Viu de tudo com desejo de parar, mas não parou. Desde um corpo caído no cruzamento da Liberdade com a 13, impedindo o acesso à liberdade, até uma mulher só com as roupas íntimas, descalça, caminhando à noite na contramão na Ernesto Geisel com os carros desviando dela até antes de vê-la.
Ela não esqueceu aquela imagem. Pensou nos sinais que antecedem aquela situação e as possibilidades enquanto tudo ficava verde diante dela. Ela fez uma oração. Ao redor tudo parecia diminuir de velocidade. Estava em slow motion… Já aqueles passos daquela mulher eram determinados sustentando um corpo volumoso, cheio de curvas, tinha um olhar firme, parecendo um firmamento de onde exalava uma Beleza de quem sabe o que quer. Não combinava com a situação.
Era um surto? Era a fuga de um estupro? Foi um assalto? Seria alguma performance artística ou uma moradora de rua? Aquela mulher sem nome parecia com uma missão, mas não estava com pressa como se nada a pudesse impedir de cumpri-la. Poderia ser uma sede de vingança prestes a ser saciada…? Poderia! Mas aquele jeito despojado e livre dela dava a estranha sensação de eu querer ser ela.
Havia uma família? Filhas? Um amor? Pais? Avós? Irmãs? Talvez… Só talvez… Fosse uma alucinação minha. Eu estou sob efeito de algo? Tomei alguma medicação? Calma, mulher! Respira! Estou me culpando por algo que nem sei se existe. O que está acontecendo? Estes são outros sinais! É isso! Já estavam aqui! Já estavam aí! Já estavam lá! Estes sinais de opressão disfarçados de liberdade…
Que viagem! Agora olho para o céu. Sou jovem! O sinal está fechado para nós...Ficou vermelho! Quando foi a última vez que isso aconteceu?
4º campeonato · Alunos
por Rafael Belo
Eu me sinto uma eterna aluna da 5° série. Vejo que todos os outros também são alunos da minha turma. Tímidos, quietos, "os cheios de problemas" que disfarçam com agressão ou piadas… Aqueles que descontam nos mais próximos ou escolhem uma vítima para isso, por falta de caráter, coragem ou opção, uns focados em fugir de casa e de cidade e alguns concentrados em boas noites para sair daqui pela porta da frente… Mas somos 5° série para sempre.
Sabe de tudo parecer constrangedor demais ou engraçado em excesso? Somos nós. Há algum tempo abriu uma rede vizinha com o nome parecido com legal em inglês ("cool") e muita gente foi abrindo.. Enfim. Já entenderam né?!. Sou uma eterna estudante porque me sinto pressionada em todo lugar por alguém que chamamos de "Mestrão". São aqueles que sabem de tudo e tudo já aconteceu com eles.
Uma vez eu falava da minha primeira menstruação - sabia que foi assim que surgiu "Carrie, A Estranha"? Pergunta pro King - então surgiu um desses "Mestrões" no meio da conversa e a galera dando corda. Ele falava que já tinha vivido isso e sabia de outros caras e tal… Ele foi ficando vermelho e olhava para todas as pessoas ali, que basicamente éramos nós: A 5° série. A gente ria, a gente ria tanto que quem não estava chorando de tanto rir, estava batendo nas coisas ou rolando no chão. Esse nunca mais apareceu.
Não estou na 5° série. Mas todos vivemos dessa forma. Já reparou no seu serviço, na academia, nos ambientes que nos forçamos a conviver? Sempre tem alguém que naturalmente é o líder, ou o chefe mesmo, na comparação seria o professor, ou a diretora da escola. Todos os outros são os personagens de sempre: o que se destaca, o que se esconde, o que faz bullying, o que sofre bullying, quem está do lado do sofredor e quem está do lado do abusador.
Lados, mais uma vez falando de lados. Por que sempre tem que ser um lado ou outro? Não parece coisa de 5° série?
4º campeonato · Rasgar
por Rafael Belo
Ao mesmo tempo que escuto, grito. Parece um rasgo no céu. Mas até então era dia e nunca havia visto céu tão azul. Ou seja, não pode ser noite nem uma chuva repentina alagadora. Porém era. Grito novamente. Sinto-me sozinha e impotente. Não consigo parar de gritar. Se fosse homem não faria diferente. Não vejo nada. Não ouço nada.
Sinto algo esmagador. Meu peito parece se quebrar, minha mente parece se partir. Eu simplesmente caio, agora muda e sem nada sentir. O tecido do tempo se abriu na minha frente. Um rio correndo, um fio elétrico corrente, brilha diante dos meus olhos. Um apagão total. Está tudo tão escuro que a escuridão pesa e também parece me pesar. Analisar o motivo de eu resistir.
Não consigo enxergar mais ao meu redor sinto milhares de presenças e, de alguma forma, sei que só eu estou desperta. Algo que não estava planejado, que não foi previsto, que não há reação ou forma de lidar. Eu sou um erro consciente. Latente vou me transformando no que vejo. Pareço uma tela. Apago rapidamente e quando meus olhos voltam a piscar, sou uma tela viva.
Pulso com o universo. Sou algum verso de capa. Estou por trás de algo Bem maior. Não me sinto ameaçada mais. Estou parte de tudo isso. Então, paira a dúvida se quando tudo parar - se parar - eu paro também. Será que vou deixar de existir ou vou fazer parte de tudo. O som deste rasgar sem fim mora dentro do meu ouvido neste instante. Sei que deveria me ensurdecer novamente ou me derrubar.
Eu respiro essa sensação com profundidade. Vou controlando piscando e pensando. É o meu controle. Sou protagonista. Sou única. Sou vida. Choro algumas luzes felizes. Compreendo até quando não é preciso razão, quando a emoção não leva. Começo eu mesma a me rasgar. Concentro-me. Respiro fundo todo ar possível e quando suspiro, me espalho. Agora sou está chama incandescente inapagável em você.
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.
Escolha um campeonato e uma palavra, e leia um por um, até o último.