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Microconto

Campeonatos de microcontos · Autores

@poetabollmann

51 microcontos nos campeonatos 11º e 5º.

11º campeonato 33

11º campeonato · Diálogo

Romance Abreviado

Depois de dois anos de trabalho incessante, contemplou o exagero: quatrocentas e oitenta e sete páginas de desnecessidades. Cortou os diálogos, retirou as tramas acessórias, omitiu descrições supérfluas. Na manhã seguinte, publicou seu microconto.

11º campeonato · Diálogo

O Filósofo Aborrecido

Diálogos de Platão. Dialética de Hegel. Pluralidade de vozes de célebres pensadores. Tudo o fascinava. Quando fechava um livro, não havia mais escuta. As falas dos vivos o aborreciam.

11º campeonato · Diálogo

Uma Mente Brilhante

Descobriu que os rostos que enxergava, as vozes que ouvia, as pessoas com quem conversava eram ilusões, produtos enganosos de seu próprio cérebro. Linguagem confiável? Apenas a matemática.

11º campeonato · Fotografia

Anonimato Derradeiro

Orgulhava-se de ter aparecido em um livro de Sebastião Salgado, com as mãos sujas de terra.
Hoje mergulha na mesma terra, bem longe dos flashes.

11º campeonato · Fotografia

Teste de gravidez

-Pronto para a revelação?
-Negativo!

11º campeonato · Fotografia

No Fundo do Baú

Na sua memória, mantinha ainda uma fotografia da primeira vez em que a viu. Memória maldita, memória movediça, abandonava-o a cada dia. Rogava sempre que não lhe roubasse aquele último tesouro do baú.

11º campeonato · Bolso

SANGUE AZUL

Derramou tudo o que restava de sua nobreza. Era agora apenas mais uma caneta estourada no bolso da camisa.

11º campeonato · Bolso

VIDA BREVE

O cartão de crédito ilimitado, que trazia no paletó, não foi capaz de comprar aquilo que ele mais precisava.

11º campeonato · Bolso

O AVESTRUZ E A LAGARTA

Jairo nem olhou no rosto do garçom, sequer reparou em sua gravata borboleta. Tirou a gorjeta do bolso, apenas para se livrar da presença indesejada. Não podia imaginar que aquele simples trabalhador era muito mais famoso do que ele.

11º campeonato · Banda

PARADA

Tocava prato no sete de setembro. No desfile da vida, perdeu o ritmo. Não soube seguir em frente.

11º campeonato · Banda

REMASTERIZADO

Estava sempre rodeado de pessoas, dava o tema das conversas, todos riam de suas piadas. Vangloriava-se:
-Quem paga a banda, escolhe a música!
Quebrou no último escândalo bancário. Silêncio e solidão.

11º campeonato · Banda

O PENETRA

(O MOTORISTA)
Não era convidado da festa. Levou uma banda.

11º campeonato · Ficção

EM CENA

A bala não era cenográfica.

11º campeonato · Ficção

No País das Maravilhas

Tudo era perfeito: casa, carro, emprego, família. Até sair da rede social

11º campeonato · Ficção

Sexta-Feira 13

Quando saiu do cinema, naquela sexta-feira de carnaval, o terror só estava começando.

11º campeonato · Cobre

O filho medalhista

Um era Cobre, o outro Estanho. Alguns chamavam o casal de estranho, mas eram muito felizes. O filho Bronze, atlético, participava de várias competições. Tudo bem que não ficasse em primeiro ou segundo lugar. Quem liga?

11º campeonato · Cobre

Século XXII

Não cuidaram do ar, das águas, ou do solo. Lançaram indiscriminadamente mercúrio, enxofre, cobre. Agora, a natureza cobre seu preço

11º campeonato · Cobre

L'Oréal

Apaixonado pela moça com cabelo cor de cobre, tentou parecer mais jovem: cobriu os fios prateados.

11º campeonato · Melancia

Céu de Estrelas

Nos dias nublados, Joaninha contava os caroços de melancia, imaginando aquilo que não podia enxergar. Na grande casca surgia a própria abóbada celeste.

11º campeonato · Melancia

Magali

A loja de departamentos mudou de nome. Os eletrodomésticos deram lugar à suculenta e imensa fruta vermelha. Uma verdadeira quitanda monotemática.

11º campeonato · Melancia

MelancIA

A fruta era transgênica. Cada molécula cuidadosamente modificada em laboratório. O natural morreu no primeiro prompt.

11º campeonato · Ano

Seis Números

A cada mega da virada ele revirava os mesmos sonhos perdidos.

11º campeonato · Ano

Fogos de artifício

Artur contemplou as cores e estrondos vindos do céu. O ano era novo, de novo. Ele, cada vez mais velho.

11º campeonato · Ano

A Questão

Da foto antiga do anuário de escola, o menino, muito sério, contemplava o homem:
-Em quem me transformei após todos esses anos?

11º campeonato · Toa

Menosprezo

-Isso não é literatura! São só umas poucas palavras à toa.
Ao ouvir aquela sandice, Ernesto permaneceu silencioso. Sorriu de canto da boca e se levantou para buscar os sapatinhos de bebê, nunca usados.

11º campeonato · Toa

A Mensagem

Acordou feliz, sorrindo à toa. Qualquer som virava toada. Brincou com a sombra, dançou com a toalha, tirou o carregador da tomada... Até que olhou o celular.

11º campeonato · Toa

O Altruísta

João sempre foi prestativo, buscava atender a todos. De favorzinho à toa em favorzinho à toa, um dia notou: não sobrava nada para si mesmo.

11º campeonato · Umbigo

CONECTADOS

Quando cortaram, ele chorou. Cinquenta anos depois, no velório da mãe, olhou para o meio da própria barriga e entendeu que não precisava chorar. A conexão entre eles nunca foi e jamais seria interrompida.

11º campeonato · Umbigo

ADÃO

-Extra! Extra! Incrível descoberta arqueológica: corpo masculino sem umbigo!

11º campeonato · Umbigo

DESNARCISISMO

Quando parou de olhar o próprio umbigo, encontrou a beleza e o amor fora de si.

11º campeonato · Moeda

O Mapa de Hades

Quando o último escritor levou em seus olhos as moedas para o barqueiro, o último leitor procurou Orfeu.

11º campeonato · Moeda

Beach Coin

Pobre, muito pobre, não tinha teto, morava na praia. No dia em que areia virou moeda, ficou milionário.

11º campeonato · Moeda

Sem Troco

Gritou, chorou, jurou que daria o troco. Nada feito. No seu repertório de ideias, só havia notas inteiras e iguais.

5º campeonato 18

5º campeonato · Nota

A TROCA

- Eugênio, ZERO!
Bradou o atônito professor.
O menino pegou aquela folha branca, riscada de vermelho, e sorriu. Não seria mais o CDF, o anormal, o esquisitão.
A turma permanecia incrédula. A chamada prosseguia enquanto as notas aumentavam.
Somente após o derradeiro anúncio todos puderam finalmente compreender o ocorrido:
- João, DEZ, nota DEZ!

5º campeonato · Nota

FAUNA FINANCEIRA

Ele adoraria cuidar de vários animais, mas estava duro, sem grana, matando cachorro a grito.
A arara? Voou. A onça? Nem sinal das pintas. O lobo Guará? Saiu latindo. O Mico-leão? Roubaram seu dourado.
Faltou alguém?
E a garoupa?
Ora, ora... A garoupa nada!

5º campeonato · Nota

INVISÍVEL

Ela até queria aparecer, mas não tem jeito. Ninguém a nota.

5º campeonato · Desejo

OS DESEJOS E O TEMPO

Eduardo estranhou.
Sempre conquistou todas as mulheres que quis, mas o desejo tinha apenas a duração da noite e logo esvaziava com as primeiras luzes da manhã.
Mas Joana era diferente. Já eram três semanas e a vontade de estar perto só aumentava.
Cinquenta anos depois, Eduardo desejou ter partido antes para não precisar cumprir aquele árduo dever: fechar os olhos de sua amada.

5º campeonato · Desejo

A FONTE DOS DESEJOS

Olhou para a fonte dos desejos.
Em um impulso arrebatador, reuniu todo seu querer, esvaziou os bolsos e arremessou os poucos trocados que trazia consigo.
Caiu em si. Voltou a pé. Desejou não ter lançado o dinheiro da passagem.

5º campeonato · Ninguém

JOÃO NINGUÉM

Todos os garotos de sua idade queriam ser alguém na vida, mas João não.
Ele só queria saber de viver, sem precisar se ocupar em ser. Desejava, tão somente, largar-se nas mãos da imanência, do puro devir, em um permanente deixa estar.
Um verdadeiro adolescente fenomenológico.

5º campeonato · Ninguém

IDENTIFICAÇÃO

Ela escrevia sobre personagens que não tinham nome, não tinham rosto, não tinham nada.
Naquela história de ninguém, muitos se identificaram.

5º campeonato · Ninguém

SEM DÚVIDA

- Alguma dúvida?
Indagou o professor.
Ninguém respondeu.
No dia da prova, o silêncio arredondou as notas e se materializou em zeros.

5º campeonato · Vazio

Não entendia aquele vazio, todas aquelas folhas em branco o incomodavam.
Alguns passaram a chamá-lo de escritor, mas ele se reconhecia, tão somente, um preenchedor de páginas.

5º campeonato · Estrela

ESTELA

Estela tinha quase tudo para ser uma estrela. Porém, mais que o erre, faltava-lhe o brilho próprio.

5º campeonato · Estrela

ESTRELA-GUIA. A cadela Estrela era os olhos de João. Os passeios a seis pés eram coloridos de uma forma diferente.

5º campeonato · Estrela

Deitaram na areia. Admiravam o céu, de mãos entrelaçadas. Ele, porém, jurava que as mais belas estrelas não moravam no firmamento e sim no brilho daqueles olhos que não cansava de contemplar.

5º campeonato · Pétala

Pé... tala! Desde o acidente de carro, dois meses plantado na cadeira de rodas, qual flor no vaso.

5º campeonato · Pétala

Na floricultura, cantarolava Pétala. Seu cacto de estimação se chamava Djavan.

5º campeonato · Pétala

No bem me quer mal me quer da vida, desejou não chegar à última pétala.

5º campeonato · Corpo

Enquanto a artista desenhava seu corpo nu, ele pensou na conta de luz que finalmente pagaria.

5º campeonato · Corpo

GOL

Está lá o corpo estendido no chão. Caiu na área é pênalti. O goleiro, o mais solitário dos seres observados por multidão, foi buscar a bola no fundo da rede.

5º campeonato · Corpo

O Amor de Sofia

Ao primeiro toque, sentiu a textura firme. Ficou toda arrepiada. Ousada, foi colocando a mão mais por dentro. Seu dedo, levemente molhado, tateou aquele corpo. Os ávidos olhos de Sofia a tudo devoravam. Depois, conduziu seu amado aos aposentos, onde, agradecida, poderia vê-lo repousar, inerte, na estante defronte à cama.

Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.

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