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Microconto

Campeonatos de microcontos · Autores

@rrartista

27 microcontos nos campeonatos 11º e 5º.

11º campeonato 20

11º campeonato · Diálogo

Bailado

Escondido na timidez, escorei as costas nos fundos da parede do salão. Não entendi, quando a moça de saia rendada estendeu o braço para dançar. Recusei, mas ela me puxou com uma energia capaz de vencer qualquer inércia. A música parou, e seguimos a conversar nossos corpos pela noite.

11º campeonato · Fotografia

Revelação

Fim dos anos 90, início da faculdade no laboratório de fotografia. Um cheiro de química pairava no ar. Folhas brancas mergulhavam nas bandejas e o invisível ganhava forma, luz e sombra em preto e branco. Ali, entre imagens que nasciam, pela primeira vez te vi.

11º campeonato · Bolso

Suspeito

Assoviava alegre sem nada no bolso ou nas mãos. Mas para a PM tinha drogas e um 38 na cintura. Morreu, sem tempo de completar a melodia ou levantar as mãos para o alto.

11º campeonato · Bolso

À Caronte

Grego partiu rodeado pelos livros e deitado no divã, onde tantas pessoas escutou. Procurei, no bolso do paletó dele, os dracmas que carregava e os coloquei sobre seus olhos.

11º campeonato · Bolso

Indícios

Chegou tarde em plena segunda-feira. Na manhã seguinte, a esposa avançou sobre o cesto de roupa suja, procurando a calça desbotada do consorte. Checando os bolsos, encontrou um papel bem dobrado. Com o coração aos pulos, leu a confissão: "Amor, fui ao Samba do Trabalhador".

11º campeonato · Ficção

Cético

Quando a água passou por debaixo da porta, não acreditei. Chovia há horas, mas meu pensamento de classe média alta não imaginaria estar subindo para o terraço da casa de três andares em busca de refúgio. Faz frio. Nunca mais rio de um flagelado. Será que fiz o seguro residencial?

11º campeonato · Ficção

A mão armada

— Mãos ao alto! Tá me tirando? Bora, isto é um assalto. Não tenho braços. Mentira? Verdade.

11º campeonato · Ficção

Romance frustrado

Era amor? Não, ficção científica.

11º campeonato · Cobre

Camarada Ivan

No meio do Bloco Comuna Que Pariu, ouvi àquela inconfundível gargalhada. Falamos do Tapajós, quase vendido por alguns cobres. Ele partiu para o Norte de todos nós sem saber que o rio resistiu. O som do seu riso ainda ecoa por aqui, e mesmo a morte não consegue calar.

11º campeonato · Melancia

Gula

Entre todas as frutas, escolheu ela. Sem pecado, mordeu com volúpia. Sobrou quase nada, além da casca e sementes. Não sentia mais fome, apenas vontade de continuar comendo.

11º campeonato · Melancia

Indelicadeza

Sua filha está grávida? Não; engoliu uma melancia do mato.

11º campeonato · Melancia

Adaptado

O governo mudou da água para o vinho. Quem era fã de milico, agora desfilava de vermelho pela seção. Mesmo lambendo a água de todo aquele suco, perdeu o cargo.

11º campeonato · Ano

Frenético

Mal começou, já parece acabar. Passou Carnaval, Páscoa, Copa, eleição. No espelho da vitrine, aceno ao bom velhinho que virei, abrindo com pressa o laço do último presente do tempo.

11º campeonato · Ano

Beijing

Nasci pequeno, em Pequim, no ano do Dragão. Serpenteei pelo tempo, virei gigante em Hong Kong. Hoje, cavalgo nos dias quentes de Cuiabá nas patas do Cavalo Vermelho. Em Macau, partirei na última lua cheia do Macaco.

11º campeonato · Ano

Nostalgia

Deus foi direto. Para que ano da tua vida queres voltar? 1989. Pedalava uma caloicross azul, jogava Atari e meu time sagrava-se campeão brasileiro.

11º campeonato · Toa

Rebocador

Sem nenhum barco para atoar, assistia o balé das ondas no mar. Poucos ouviam, mas ele deliciava-se com os agudos das sereias.

11º campeonato · Toa

Refúgio

Entre cervejas e tragos de cachaça, contava piadas para os conhecidos do Tô à Toa. Ria para não chorar. Adiava a volta para casa, onde teria que se confessar desempregado.

11º campeonato · Toa

Reverso

Campeão mundial de rúgbi, o guerreiro Maori Toa passeava, numa boa, de pedalinho, bebendo cerveja pela Lagoa no Carnaval carioca.

11º campeonato · Toa

Rolê

À toa, caminho pela Glória. Há por lá, os sem-teto e os sem-vergonha. Entre eles, alguém aposta no bicho ou culpa os trabalhadores pela quebra do banco Master.

11º campeonato · Umbigo

Desejo ancestral

O umbigo da mulher gravidíssima saltava da barriga. Já sentindo as contrações do parto, pediu ao marido que não a levasse ao hospital. Queria que a filha nascesse na mesma cama onde ela, a mãe e a avó vieram ao mundo.

5º campeonato 7

5º campeonato · Desejo

Cela do desejo

Aqui, em paradeiro perdido, paredes espremem mais do que o corpo. Até a mente não consegue voar, depois de 999 dias em cárcere. A obsessão por fuga retorna frustração ao peito. Impotente, rogo a Deus pelo milagre de ver uma última lua cheia sobre o mar. E, assim, saboreando o sal e o vento, fecho feliz a cortina das janelas de minh ‘alma.

5º campeonato · Ninguém

Diz o ditado

Mamãe mandava: estuda pra ser alguém! O bordão repetido exaustivamente só parou quando meu número apareceu na lista dos aprovados do vestibular. Fiz Letras, virei professora, vivo em Copa; casei, mudei de profissão, separei. Ainda assim, às vezes, sinto-me ninguém, precisando mais do que estudar para me achar alguém.

5º campeonato · Vazio

Pedido

O breve bilhete dizia fim. A tevê permanecia ligada, assim como o ventilador que amenizava o calor e o cheiro. Ele tinha muitos anos e há tempos não sabia que foi Seu Antônio ou meu pai. Recordei que, quando ainda tinha alguma vontade, pediu para ser cremado e as cinzas lançadas no vale vazio do Morro das Videiras.
Rr

5º campeonato · Estrela

Sinal celestial

Fogos estourados, flores ao mar, champanhe entornado e roupas brancas já encardidas. Raiava quase a primeira manhã do novo ano. O olhar trazia um pedido, verbalizado em maternar. Em dúvida, atônito e embriagado, olhei o céu, mais laranja que azul, quando a estrela passou com toda a potência do sim.
Rr

5º campeonato · Corpo

Gozo

Suado e sem ar, deixo o corpo sobre outro corpo levitar. Por instantes, sinto a vida inteira de uma pequena morte. Escorrego do paraíso. Logo estou de volta, anjo caído à procura do cosmo.
Rr

5º campeonato · Corpo

Censo

Alguns o chamam de encantado, outros, de lixo. Pertence a quinta geração de gente procriada nas ruas, dormindo sob marquises e vivendo de restos ou da caridade. O corpo pardo dorme com fome ou vagueia à noite no torpor do crack, depois de juntar 130 latinhas. Como mais de um milhão de brasileiros, mija e defeca a céu aberto.
Rr

5º campeonato · Corpo

Transmutação

Despertava e dormia a sonhar com peitos, coxas e bunda. Um dia, enfim, amanheceu ela e nunca mais quis outro corpo.
Rr

Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.

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