11º campeonato · Diálogo
Bailado
Escondido na timidez, escorei as costas nos fundos da parede do salão. Não entendi, quando a moça de saia rendada estendeu o braço para dançar. Recusei, mas ela me puxou com uma energia capaz de vencer qualquer inércia. A música parou, e seguimos a conversar nossos corpos pela noite.
11º campeonato · Fotografia
Revelação
Fim dos anos 90, início da faculdade no laboratório de fotografia. Um cheiro de química pairava no ar. Folhas brancas mergulhavam nas bandejas e o invisível ganhava forma, luz e sombra em preto e branco. Ali, entre imagens que nasciam, pela primeira vez te vi.
11º campeonato · Bolso
Suspeito
Assoviava alegre sem nada no bolso ou nas mãos. Mas para a PM tinha drogas e um 38 na cintura. Morreu, sem tempo de completar a melodia ou levantar as mãos para o alto.
11º campeonato · Bolso
À Caronte
Grego partiu rodeado pelos livros e deitado no divã, onde tantas pessoas escutou. Procurei, no bolso do paletó dele, os dracmas que carregava e os coloquei sobre seus olhos.
11º campeonato · Bolso
Indícios
Chegou tarde em plena segunda-feira. Na manhã seguinte, a esposa avançou sobre o cesto de roupa suja, procurando a calça desbotada do consorte. Checando os bolsos, encontrou um papel bem dobrado. Com o coração aos pulos, leu a confissão: "Amor, fui ao Samba do Trabalhador".
11º campeonato · Ficção
Cético
Quando a água passou por debaixo da porta, não acreditei. Chovia há horas, mas meu pensamento de classe média alta não imaginaria estar subindo para o terraço da casa de três andares em busca de refúgio. Faz frio. Nunca mais rio de um flagelado. Será que fiz o seguro residencial?
11º campeonato · Ficção
A mão armada
— Mãos ao alto! Tá me tirando? Bora, isto é um assalto. Não tenho braços. Mentira? Verdade.
11º campeonato · Ficção
Romance frustrado
Era amor? Não, ficção científica.
11º campeonato · Cobre
Camarada Ivan
No meio do Bloco Comuna Que Pariu, ouvi àquela inconfundível gargalhada. Falamos do Tapajós, quase vendido por alguns cobres. Ele partiu para o Norte de todos nós sem saber que o rio resistiu. O som do seu riso ainda ecoa por aqui, e mesmo a morte não consegue calar.
11º campeonato · Melancia
Gula
Entre todas as frutas, escolheu ela. Sem pecado, mordeu com volúpia. Sobrou quase nada, além da casca e sementes. Não sentia mais fome, apenas vontade de continuar comendo.
11º campeonato · Melancia
Indelicadeza
Sua filha está grávida? Não; engoliu uma melancia do mato.
11º campeonato · Melancia
Adaptado
O governo mudou da água para o vinho. Quem era fã de milico, agora desfilava de vermelho pela seção. Mesmo lambendo a água de todo aquele suco, perdeu o cargo.
11º campeonato · Ano
Frenético
Mal começou, já parece acabar. Passou Carnaval, Páscoa, Copa, eleição. No espelho da vitrine, aceno ao bom velhinho que virei, abrindo com pressa o laço do último presente do tempo.
11º campeonato · Ano
Beijing
Nasci pequeno, em Pequim, no ano do Dragão. Serpenteei pelo tempo, virei gigante em Hong Kong. Hoje, cavalgo nos dias quentes de Cuiabá nas patas do Cavalo Vermelho. Em Macau, partirei na última lua cheia do Macaco.
11º campeonato · Ano
Nostalgia
Deus foi direto. Para que ano da tua vida queres voltar? 1989. Pedalava uma caloicross azul, jogava Atari e meu time sagrava-se campeão brasileiro.
11º campeonato · Toa
Rebocador
Sem nenhum barco para atoar, assistia o balé das ondas no mar. Poucos ouviam, mas ele deliciava-se com os agudos das sereias.
11º campeonato · Toa
Refúgio
Entre cervejas e tragos de cachaça, contava piadas para os conhecidos do Tô à Toa. Ria para não chorar. Adiava a volta para casa, onde teria que se confessar desempregado.
11º campeonato · Toa
Reverso
Campeão mundial de rúgbi, o guerreiro Maori Toa passeava, numa boa, de pedalinho, bebendo cerveja pela Lagoa no Carnaval carioca.
11º campeonato · Toa
Rolê
À toa, caminho pela Glória. Há por lá, os sem-teto e os sem-vergonha. Entre eles, alguém aposta no bicho ou culpa os trabalhadores pela quebra do banco Master.
11º campeonato · Umbigo
Desejo ancestral
O umbigo da mulher gravidíssima saltava da barriga. Já sentindo as contrações do parto, pediu ao marido que não a levasse ao hospital. Queria que a filha nascesse na mesma cama onde ela, a mãe e a avó vieram ao mundo.