11º campeonato · Diálogo
UM LAR? — Você nunca me escuta — ela disse, sem tirar os olhos do livro.
Ele baixou o volume da TV, franziu a testa e virou-se para o sofá:
— O que você disse?
Ela fechou o livro lentamente, soltou um suspiro pesado e encarou o vazio da sala.
— Exatamente.
11º campeonato · Diálogo
BRADO SILENCIOSO. — Você ainda fala comigo? — perguntou ele, olhando para a xícara vazia.
— Sempre falei — respondeu o silêncio.
Ele respirou fundo.
— Então por que nunca me responde?
— Eu respondo — disse o silêncio outra vez. — Você é que tem medo de escutar.
A xícara continuou vazia. Mas, pela primeira vez, ele não estava sozinho
11º campeonato · Fotografia
O ASSALTO. Com terror no olhar viu sua bolsa ser levada com a única lembrança de sua mãe.
11º campeonato · Bolso
O RECADO: No fundo do bolso do casaco antigo, ele guardava o mundo.
Havia uma moeda gasta, um bilhete de ônibus vencido e um papel dobrado tantas vezes que já parecia tecido. Nele, a letra apressada dizia apenas: “Volto já.”
Nunca voltou.
Às vezes, na pressa do dia, ele enfiava a mão no bolso e sentia o farfalhar do papel, como se fosse um coração pequeno insistindo em bater. Não tinha coragem de jogar fora. Nem de reler.
11º campeonato · Bolso
DECEPÇÃO: Achou que era um carinho lascivo no joelho, mas era só o celular vibrando no bolso furado da calça jeans.
11º campeonato · Banda
ATRAVÉS DO ESPELHO: O espelho partiu-se ao meio, mas ele não desviou o olhar. De um lado, o rosto que o mundo conhecia; do outro, a banda obscura que guardava apenas para si. No reflexo rachado, ele finalmente estava inteiro.
11º campeonato · Banda
IRMÃOS ANICETO: O pífano rasgou o mormaço da tarde, agudo e ancestral, convocando os mortos e os vivos para o centro do terreiro. Não era apenas música; era o chão batido ganhando voz. Os zabumbas entraram em seguida, um trovão seco que sincronizava os batimentos cardíacos de quem assistia com o couro esticado pela mão do mestre.
Enquanto o mormaço subia, os músicos giravam em um transe de fôlego e suor. Cada nota era um grito de resistência que atravessava séculos de poeira. Quando o último sopro silenciou, o sertão pareceu prender a respiração, ainda vibrando com a força de uma banda que não tocava para os ouvidos, mas para a terra.
11º campeonato · Banda
DISCORDIA: A banda acabou antes de começar.
Brigaram pelo nome, pelo solo, pelo sonho.
Anos depois, cada um seguiu seu caminho —
mas, quando a mesma música toca no rádio, todos ainda baixam o volume da vida para ouvir o que poderiam ter sido.
11º campeonato · Ficção
CO-AUTOR
Ele descobriu que era personagem quando começou a ouvir o som das páginas sendo viradas.
Tentou correr, mas a rua terminava sempre na mesma vírgula. Gritou, mas sua voz saía em fonte tamanho 12, perfeitamente alinhada.
Então decidiu fazer o impensável: ficou imóvel.
As páginas passaram em branco.
E, pela primeira vez, ele escreveu o autor.
11º campeonato · Ficção
MATRIX: O relógio de pulso de Elias marcou 24:01.
Ele estranhou, mas o verdadeiro calafrio veio quando olhou pela janela: os carros flutuavam, imóveis, presos em uma malha de luz neon que costurava o céu. Ao tocar o vidro, a ponta de seu dedo não encontrou resistência, apenas uma vibração morna e um aviso em letras garrafais que surgiram no ar:
ERRO DE RENDERIZAÇÃO: Reiniciando consciência em 3... 2...
Elias tentou gritar, mas sua voz já era apenas uma linha de código se desfazendo no vácuo.
11º campeonato · Cobre
Luto: O céu daquela tarde tinha cor de cobre, como se o sol estivesse enferrujando.
Ele segurava o velho fio desencapado entre os dedos, tentando religar o rádio do pai.
Quando a estática cedeu lugar à música, percebeu: não era eletricidade que corria ali — era memória conduzida por metal.
E, pela primeira vez desde o luto, a casa voltou a vibrar.
11º campeonato · Cobre
100 METROS RASOS: Juvenal finalmente encontrou o tesouro: um cano de cobre grosso, brilhando como ouro de tolo no sótão.
— Agora eu mudo de vida! — rugiu, dando a primeira marretada.
O cano não quebrou, mas o reboco sim, revelando que o metal servia de suporte para um enxame de marimbondos que não pagavam aluguel há décadas. Juvenal não ficou rico, mas mudou de vida: descobriu que consegue correr 100 metros rasos em tempo recorde e que seu rosto, de tão inchado, agora lembrava uma melancia madura.
11º campeonato · Melancia
MEMÓRIAS: A melancia ocupava metade da mesa e todo o verão da infância.
Quando o pai cravou a faca, o estalo abriu não só a casca verde, mas uma memória inteira: o cheiro doce, as mãos pegajosas, as risadas escorrendo pelo queixo.
Anos depois, sozinho na cozinha silenciosa, ele repetiu o gesto.
A melancia partiu-se ao meio —
e por um instante, o mundo voltou a ter sementes de alegria.
11º campeonato · Melancia
O sol do meio-dia não perdoava, mas ele nem sentia. Deitado na rede, sustentava com orgulho aquele globo perfeito que desafiava a gravidade sob a camisa regata.
A neta, curiosa, aproximou-se e deu dois tapinhas secos na pele esticada. O som foi oco, firme, musical.
— Tá madura, vô? — ela perguntou, rindo.
Ele deu um tapinha de volta, soltou um riso satisfeito e respondeu:
— Essa aqui não, pequena. Essa aqui é safra especial, cultivada a base de churrasco e muita paciência.
11º campeonato · Ano
RÉVEILLON
No último dia do ano, ele guardou no bolso um papel com tudo o que não conseguiu ser.
À meia-noite, enquanto os fogos riscavam o céu, rasgou a lista em silêncio.
O novo ano não começou com promessas — começou com espaço.
11º campeonato · Ano
MATURIDADE
No espelho, ele procurava o rastro do tempo como quem busca uma assinatura. Não estava nas rugas ao redor dos olhos, que ele preferia chamar de mapas de riso, nem nos fios brancos que insistiam em brilhar sob a luz do banheiro.
O ano extra não estava na pele; estava no peso mais leve de suas certezas e no silêncio que, finalmente, não precisava mais ser preenchido. Ele não estava ficando mais velho; estava apenas se tornando mais nítido
11º campeonato · Toa
DESEMPREGO passou a vida correndo atrás de horários, metas e promessas.
Um dia, perdeu o ônibus, o emprego e a pressa.
Sentou-se na praça, olhando as nuvens desfiando o céu, sem destino algum.
Pela primeira vez, estava à toa.
E descobriu que o mundo continuava girando — mesmo sem ele empurrar.
11º campeonato · Toa
No palanque, as promessas transbordavam, infladas por punhos cerrados e hinos decorados. Prometiam o asfalto, o pão e a glória. O povo, aglomerado sob o sol de meio-dia, aplaudia o eco de palavras que já conhecia de cor.
Enquanto isso, nos gabinetes de mármore e portas blindadas, as canetas repousavam sobre papéis em branco. Entre um cafezinho e um riso abafado, decidiam o destino de milhões com o descaso de quem joga dados. A esperança de uma nação morria ali, no cinismo de quem governa à toa, tratando o futuro como um detalhe irrelevante diante do próximo banquete.
11º campeonato · Umbigo
LIGAÇÃO: Ele descobriu o próprio umbigo aos cinco anos, como quem encontra um enigma no meio da barriga.
Perguntou à mãe por que tinha aquele pequeno redemoinho afundado na pele. Ela respondeu: “É o nó da primeira saudade.”
Desde então, sempre que se sentia sozinho, ele tocava o umbigo com a ponta do dedo — como se apertasse um botão secreto que o ligava, invisível, a um tempo em que nunca esteve só.
11º campeonato · Umbigo
EGO MAXIMUS: O mestre da autorreferência não precisava de espelhos; bastava-lhe baixar o olhar. Para ele, o mundo não era um globo, mas uma circunferência perfeita que orbitava em torno daquele pequeno buraco no centro de si.
Passava os dias polindo a própria pele, certo de que o universo era um dreno e ele, o único ponto de escoamento que importava. Quando o resto do mundo gritava por socorro, ele apenas limpava um fiapo de algodão imaginário do próprio ventre, sorrindo para o abismo que chamava de centro do mapa.
11º campeonato · Umbigo
NARCISO: Narciso não se afogou num lago; ele se perdeu num looping. Convencido de que seu umbigo era o botão de "pause" do universo, passava horas em meditação profunda, encarando a própria barriga.
— Se eu apertar bem forte — sussurrava para as paredes — , o mundo lá fora finalmente para de girar e me deixa em paz.
A epifania veio numa terça-feira, quando descobriu um fiapo de meia azul preso na cavidade. Em vez de limpar, ficou horrorizado: para ele, aquilo não era sujeira, era a prova de que o cosmos estava tentando vazar para dentro do seu santuário particular. Passou a tarde tentando "rosquear" o umbigo no sentido horário, crente de que, se fechasse bem a tampa, o resto da humanidade finalmente deixaria de existir.
11º campeonato · Moeda
CONTO DE REIS: Ele guardava moedas num pote de vidro — não pelo valor, mas pelo som.
Toda noite, despejava-as na mesa e escutava o tilintar metálico, como se cada centavo narrasse um dia vencido. A moeda mais antiga, já quase lisa, não comprava mais nada — exceto a lembrança do primeiro salário.
11º campeonato · Moeda
APOSTA: No ar, o metal girava entre o "sim" e o "não". Antes que a moeda tocasse o chão, ele percebeu que a sorte já fora lançada: o valor não estava na face que ficaria para cima, mas na coragem de aceitar o lado que o destino escolhesse.
11º campeonato · Moeda
POÇO DOS DESEJOS: No fundo da fonte, a moeda de um centavo brilhava sob o lodo. Fora o preço barato de um desejo de juventude, hoje uma perda irrisória comparada ao peso do amor que ele deixou afundar junto com o metal. Percebeu que algumas fortunas a só se valoriza quando o troco é a solidão.