5º campeonato · Bolinha
Bolinha azul, silenciosa, traçando a sua pequena trajetória elíptica na imensidão do Universo. E a gente consegue fazer guerra.
5º campeonato · Bolinha
Bolinha azul, silenciosa, traçando a sua pequena trajetória elíptica na imensidão do Universo. E a gente consegue fazer guerra.
5º campeonato · Palhaço
Ri tanto daquele palhaço. O mais engraçado é que ele estava dentro do espelho.
5º campeonato · Palhaço
Ele é o mágico que tira gargalhadas da cartola. Ele é o equilibrista que balança a graça e a desgraça. É o trapezista que se lança no espaço e espera que nosso olhar o segure, impedindo-o de cair no vazio de um dia sem risadas. Dentro do palhaço, um circo inteiro.
5º campeonato · Marca
Na calada da noite, aquele pai chegava até a cama da filha um minuto antes do pesadelo.
5º campeonato · Marca
Dia horrível, mas ela se mantém calma. Desejo de matar, porém a sua expressão é serena. A paz da toxina botulínica habilmente injetada na marca da fúria.
5º campeonato · Marca
Pra que colocar de molho? Pra que quarar? Deixa lá.
Marca da vida só tem sentido se for pra ficar.
5º campeonato · Cebola
Cheiro da cebola fritando com alho, em casa, ao meio-dia. Com pai, com mãe, com irmãos. Mãos lavadas na pia. O gato se esfregava na perna e o cachorro lambia. Memória em cena azulada, cenário da frase clichê: “era feliz e não sabia”.
5º campeonato · Nota
Sobre ela, nenhuma nota no jornal. Pulou. Nenhuma nota no jornal sobre ela.
5º campeonato · Nota
Sonhava com a nota perfeita. Nada muito agudo como um dez (muito cheio de si), nada muito grave como um zero (tenha dó!). Algo que soasse como inteligência, mas sem esnobismo. Acima da média. Poderia ser um sol.
5º campeonato · Desejo
Ela não conseguia lembrar de dias bons, porque os ruins martelavam em sua cabeça. O desejo de vingança corroía-lhe até os ossos. Ficou ali, com a faca na mão, esperando a dor ir embora. Escorrer junto ao sangue dele, no assoalho da cozinha.
5º campeonato · Ninguém
(Lembrança de um Filme visto na infância)
Velho Oeste. O nome dele era Ninguém. No duelo com o líder dos foras da lei, ele venceu. Na lápide do perdedor: “Aqui jaz Buck ‘Outlaw’ Donovan. Ninguém era mais rápido no gatilho do que ele”.
5º campeonato · Vazio
Fome
Saco vazio não para em pé.
A pessoa invisível, vazia no chão.
5º campeonato · Estrela
Mirou na Luana e acertou a Estela. Flecha de cupido novato, vinda das estrelas.
5º campeonato · Pétala
Cheirava livros. Página por página.
Lia flores. Pétala por pétala.
4º campeonato · Anel
Na família de seu esposo havia uma senhora que parecia estar ali desde sempre. Uma anciã de raciocínio vívido. A mulher evitava os olhinhos aquosos, pois, sem dizer nada, a idosa parecia saber sobre suas intrigas e traições. Da velha ela gostava mesmo era do anel. Ouro antigo. Quando a anciã morreu, surpreendentemente, deixou-o para ela. Magnífico. Passou a usá-lo sempre.
Então, durante um almoço, o seu dedo caiu.
4º campeonato · Abóbada
Além de meu ser, posso sentir que algo respira em mim. Respira e pulsa. Veloz, atravessa minha corrente sanguínea. Aflora em minha pele, conectando-me com as águas, as plantas e os bichos. Essa é a força de todas as minhas mães e os meus pais. Ancestrais caminhantes por um universo de amor, de dor e de lendas. Estamos juntos nessa mesma teia. Tecidos nela como sonhos. É o que somos. Caminhantes em uma jornada infinita.
4º campeonato · Receita
Misture amor e dor. Acrescente as emoções que tiver à mão. Uma porção generosa de aprendizado. Surpresas à gosto. Anos de cozimento. A vida estará pronta.
Sirva quente.
4º campeonato · Receita
Almoço rápido na rua, um pouco antes da reunião importante. Um belo cachorro-quente cheio de molho vermelho. Minha camisa branca. Eu e meu inseparável jeito atrapalhado.
Só depois notei que estava pronta a receita para o desastre.
4º campeonato · Receita
fila sopão.
4º campeonato · Receita
Discordo. Coração peludo só pode ser o melhor coração que tem.
4º campeonato · Receita
Lama e destroços cobriam meu corpo, pesando sobre meu peito. Respiração difícil. Escuridão. Antes disso, só lembrava de ter ido dormir tarde, naquela noite de chuva forte. Em minha mente confusa, cruzou a palavra “deslizamento”. Em seguida pensei “estou morto, minha casa está em cima de mim”. Meus ouvidos tapados de terra conseguiram distinguir um latido. Começaram a escavar. Sempre gostei de cachorros.
4º campeonato · Receita
Ele não iria desistir até encontrar. Era o seu propósito. Ele sabia que fazia algo importante ali. Logo a chuva, a lama, nada disso o incomodavam. Continuava a procurar. Foi então que sentiu o cheiro. O cheiro certo que era para sentir. Mostrou a todos a pequena mãozinha enlameada, quase invisível, entre os escombros. Latiu ainda mais alto quando viu que ela se mexia.
4º campeonato · Bilhete
“Mimosa da mamãe, fui buscar açúcar. Beijo!”
Nem precisava.
4º campeonato · Bilhete
Caminhando na praia, eu podia sentir a areia macia aos meus pés e apreciar o colorido daquele entardecer dourado. Uma brisa deliciosamente fresca acariciava meu rosto corado de sol quando a encontrei. Uma garrafa com um bilhete dentro. Abri. Desenrolei o papel com cuidado. Enfim, li:
“Socorro! Mamãe disse que as férias acabaram!”
4º campeonato · Bilhete
Dizia o bilhete encontrado no bolso do enforcado.
4º campeonato · Drama
Todas as certezas estavam lá. Visíveis nos lençóis bagunçados pela manhã, nas conversas regadas a café quente e doce, na risada gostosa do filho. Uma alegria que vinha daquele amor misturado, indissociável da própria vida. E era essa a vida que viviam. Isso até a noite em que tudo o que eles tinham (e ainda teriam!) foi roubado. Um assalto na rua. Um tiro. Solitário.
4º campeonato · Romance
Primavera azul. Vento soprando pétalas.
Dois rodopios. Um pio leve.
Dois passarinhos apaixonados.
4º campeonato · Romance
Foi por acaso ou foi combinado?
O certo é que saltamos juntos. Na mesma, exata, hora.
Mergulhamos naquela paixão.
4º campeonato · Romance
Tinha dito que nunca iria sentir assim. Abandonada à sorte de um amor insano. Doente pelo encontro do final do dia. Faminta pela migalha de atenção de alguém. Não mesmo. Fugiria antes, mataria antes. Só precisava de mais uma noite. Mais uma. Assim como ontem.
4º campeonato · Fantasia
No meu aniversário de 12 anos, a marca de lua apareceu na palma de minha mão esquerda.
Minha mãe chorou de alegria. Ainda naquele dia, após comermos uma fatia do bolo, ofereceu-me um pássaro morto para eu segurar. Obedeci, apesar de sentir um misto de tristeza e asco. Em dois segundos e meio, o pássaro voou de minhas mãos. Levou com ele a vida normal que eu poderia ter tido.
4º campeonato · Fantasia
Minha vida era bem normal.
Rotineira mesmo.
Talvez enfadonha.
Até o dia em que escorreguei e caí dentro de um livro.
4º campeonato · Fantasia
Garota que nunca tirava o boné, chapéu, gorro.
Sempre com alguma coisa enterrada na cabeça.
Na escola todos já estavam acostumados e achavam ser uma mania, estilo, esquisitice ou (precoce) calvície.
Escondidas, as orelhinhas pontiagudas da menina-elfo passavam as tardes, vermelhas. Inconformadas.
Ideias de liberdade enterradas cabeça.
4º campeonato · Fantasia
Queria poder voar.
Sair correndo seria estranho, pois afinal ele já tinha visto que ela vinha na sua direção. O negócio era enfrentar. O que estava passando na cabeça dela quando deixara aquele bilhete na mesa dele? Justo o garoto mais incrível da escola? Agora estavam a poucos passos, eles iriam passar um pelo outro…
- Seu bilhete foi maneiro!
Ah! Sim, agora ela sentia que podia voar!
Estava nas nuvens.
4º campeonato · Fantasia
Capituxa queria ser bruxa. Mil vezes ela ensaiava, mas fazendo o feitiço sempre se atrapalhava... ao invés de maldade, só bondade espalhava! Fama? Só de bruxinha enrolada! Um dia ela deitou no meio da floresta, olhou para uma brecha de céu azul e chorou. Uma lágrima escorreu até o seu ouvido e sussurrou uma ideia. Capituxa descobriu que ser bruxa não lhe servia pra nada. Seguiu e foi a melhor aluna da Escolinha de Fada.
4º campeonato · Terror
Naquele dia ela acordara com um incrível bom humor. Fizera tudo conforme ele mais sonhava. Cama, casa, comida. Tudo cheiroso e gostoso. À noite ele foi fazer um carinho atrás da orelha dela, na base do crânio, onde ela gostava. Ela afastou-se da mão, mas ele já tinha notado a frieza de um botão metálico.
4º campeonato · Terror
Queria acordar daquele pesadelo. Acordou. O pesadelo também.
4º campeonato · Humor
Na verdureira do Manoel, descobriram que o assassino do português era o seu próprio filho… ele escrevera alface com ‘s’!
4º campeonato · Pico
O objetivo era o pico. Foi aí que desceu a ladeira.
4º campeonato · Policial
A camisa já tinha lhe sido arrancada. As mulheres continuavam gritando: Tira! tira! E a música alta não permitia que o jovem policial explicasse que estava ali por causa da queixa de barulho.
4º campeonato · Policial
Tudo o que escrevia andava se materializando. Escreveu a palavra policial. Bateram à porta.
4º campeonato · Ontem
Os sinais estavam todos ali. Não cabia mais naquele espaço e precisava de ar… nasceu.
“Ops! Esse era o tema de ontem!”
4º campeonato · Sinais
Os sinais eram claros… Ele era lindo e elegante. A deixava totalmente à vontade e confortável e fazia com que ela se sentisse especial… ela estava nas alturas! Ele era o seu número, com certeza! Resolveu ficar com ele antes que outra se apaixonasse… Pagou uma nota, mas o sapato era seu!
4º campeonato · Alunos
Café. Mochila. Escola. Alunos. Recreio. Tiro.
4º campeonato · Alunos
ONDE ESTÃO TODOS?
“Qual a capital do Sudão?”
Essa era a última memória na cabeça da garota. Há um minuto estavam todos ali, na prova de geografia, um pouco antes da dor nas costas. Perambulou corredores, abriu portas. Ninguém. No pátio, estreitou os olhos diante da luz e vislumbrou a silhueta de alguns alunos e da professora. Correu até eles e ouviu da mestra:
- Tudo vai ficar bem, minha querida, sua avó está aqui para buscá-la.
4º campeonato · Selo
Quem selou o meu destino não sabia o endereço certo e a minha vida ficou assim… em aberto.
4º campeonato · Rasgar
“Até a morte?” Era o pensamento que gritava em sua mente e fazia seus olhos arregalados vazarem sem controle. Subitamente o peso do anel tracionou a sua mão em direção ao solo sagrado. Suas unhas cravaram no piso. O corpo da jovem se curvou e o vestido começou a rasgar pelas costas. Dos frangalhos brancos caídos no altar emergiu uma loba. Olhou para todos e, livre, correu.
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.
Escolha um campeonato e uma palavra, e leia um por um, até o último.